sábado, 7 de abril de 2012

Dez réis de gente


Era assim que o costumavam chamar, “Dez réis de gente”, e de tanto o chamar assim, já se tinham esquecido do verdadeiro nome dele.
“Dez réis de gente”.
Dele, pouco ou nada se sabia. Apenas que num dia igual a tantos outros tinha aparecido vindo de não se sabia onde.
Por mais que lhe perguntassem quem ele era e de onde vinha, não respondia: não sabia, era como se tivesse aterrado ali por engano. Só sabia dizer o nome por que era chamado, mas até esse, já tinha passado à história. Agora, só sabia que era o “Dez réis de gente”.
Qual João, Tiago, Pedro ou António, qual carapuça!
“Dez réis de gente”.
Para o melhor e para o pior, “Dez réis de gente”.
Para tudo e para todos, “Dez réis de gente”.
Aqui e mais além, “Dez réis…

... JÁ CHEGA! Já percebemos a ideia. “Dez réis de gente”, não é verdade?...
Mas, mas… quem fala?
(risos) Sou eu, sua cabeça de andorinha.
Eu, quem?
A tua criação.
Minha criação?!...
Pois… Não és tu que estás a escrever esta história?
Sim, sou eu.
Então, pronto. Isso faz de mim a tua criação.
Sendo assim, tu és…
Exactamente. O “Dez réis de gente”.
Mas, mas… como?
Ai, isso já não te sei dizer. Só sei que estou aqui.
Pois, isso também eu vejo… ou melhor, oiço. E a que devo a honra, podes-me dizer?
Simples. Avança lá com a história, que já ficou bem esclarecido que eu sou o “Dez réis de gente”.

De maneira a juntar alguns tostões que lhe permitissem a sobrevivência, “Dez réis de gente” dedicava-se a ser um espécie de faz-tudo: tudo o que fosse preciso ele fazer, ele fazia: um verdadeiro mestre na arte do desenrascanço.
Eram várias as vezes em que se tinha de ausentar por alguns períodos de tempo, mas como não tinha ninguém a quem se justificar, não havia problemas.
Foi durante uma dessas ausências que um senhor todo bem-falante, perfumado e engravatado apareceu na vizinhança, à procura de um tal de Bernardo Assis.
Bernardo Assis?... Não, não conheciam.
De certeza?... O tal senhor parecia mesmo desapontado. Tinham-lhe garantido que era por ali que ele costumava parar.
Ná, por ali não havia ninguém com esse nome, Bernardo Assis.
A não ser…, alguém começou.
Sim?, o senhor perguntou esperançado. A não ser?...
O “Dez réis de gente”.
“Dez réis de gente”?
Sim, ninguém sabia quem ele era, nem sequer o nome. E alguém ele tinha que ser, tinha que ter algum nome.
Também era correcto: estava bem visto, sim senhor.

Ah, não! Nem pensar!...
O que foi agora?
Bernardo?... E eu lá tenho cara de Bernardo?
(suspiro) O que é que tem Bernardo?
Nada. Eu até gosto do nome.
Mas…?...
É que eu me imaginava mais como um Frederico. Ou Dinis.
Está bem, mas as coisas não são como tu imaginas. São como eu escrevo.
Olha-me bem só para isto, já a pulga tem catarro…
Cala-te! Cala-te, que é bem melhor…

Só que ninguém sabia dizer por onde o “Dez réis de gente” parava.
Ele às vezes tem desta coisas, sabe?..., alguém começou a explicar. Passavam-se dias sem ninguém lhe pôr a vista em cima.
E a casa dele?, o senhor perguntou.
Toda a gente se entreolhou: a casa dele?...
Pois, onde ele morava…
As pessoas ficaram envergonhadas, como se alguém as tivesse apanhado em flagrante. Nunca se tinham lembrado disso: onde é que o “Dez réis de gente” morava. Ele simplesmente estava.
Ninguém sabia. Ninguém sabia onde ele morava.

Mas que raio?!?...
Ai, a minha santa paciência!... O que é que tu queres?
O que é que eu quero?! Quero que tu desenvolvas a história, homessa! Estás aí nesse chove, não molha, chove, não molha… Vá, vá, vá: andor, andor…
Olha que essa está muito boa, sim senhor: mas quem é que está a escrever esta história, sou eu ou és tu?
És tu. E é por isso mesmo que te posso dizer: a culpa de eu me ver nestes assados, é da tua exclusiva responsabilidade.
Como é que é?
Ah, pois: não tenho nome, não tenho casa e ando desaparecido.
Ah, não me chateies, está bem?... Olha, sabes o que é que podias fazer?
O quê?
Desempatar-me a loja.
Hã?...

O tal senhor bem-falante, perfumado e engravatado foi-se embora, sem conseguir o que queria.
E do “Dez réis de gente” também nunca mais se soube. Tão misteriosamente como tinha aparecido… tinha desaparecido.





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