domingo, 25 de março de 2012

Como diz que foi que disse?


Escretável.
Beto tinha apelidado Eunice de “escretável”.
Quando Eunice ouviu aquela não sabia se palavra pela 1.ª vez, quase que se desmanchou a rir. Foi instintivo, pois ela nunca tinha ouvido tal coisa. Aquilo lembrava-a de escroto e isso era algo que ela sabia não ter.
Beto devia estar a brincar com ela, só podia.
Mas não.
Escretável, ele repetiu muito sério.
Mas que raio seria isso, “escretável”?...
Primeiro, Eunice quis consultar o dicionário, não fosse às páginas tantas a palavra até existir mesmo, ela é que não a conhecia. Mas não, nada. Ainda foi ver online, não se fosse dar o caso de ser um vocábulo novo, que ela nunca tivesse ouvido. Mas novamente, nada.
Descartável?, Eunice ainda pensou. Mas logo a seguir afastou a ideia: não, não fazia qualquer sentido.
Quereria ele dizer… “execrável”?... Sim, se calhar, era isso… Por aproximação fonética e seguindo o sentido do que Beto tinha dito a Eunice, essa era a hipótese mais segura: execrável.
Mas também, que ideia: execrável, abominável…
Porque seria que ele lhe tinha dito aquilo?...
Não importava…
Quer-se dizer… Importar, até importava. Eunice tinha ficado triste, e muito, com aquelas palavras. Por mais que ela fingisse não ligar, as palavras de Beto tinham-na magoado. Ainda mais, por Eunice senti-las tremendamente injustas.
Que Beto considera-se Eunice uma pessoa execrável, abominável, era um direito que lhe assistia. Por mais que Eunice não gostasse, tinha que aceitar.
Agora, que a acusasse de coisas que ela sabia não serem verdadeiras…
Isso deixava Eunice muito triste.
É que Beto em sequer tinha tentado falar com ela, para procurar saber da veracidade do que ele pensava saber.
Não, ela tinha partido logo para a acusação.
Eunice nem sequer se deu ao trabalho de refutar as acusações de Beto: para quê?... Ela sabia que aquela era uma batalha já perdida, pois ele acreditava piamente nas suas palavras, nas suas acusações: Eunice lia a determinação nos olhos de Beto.
Uma determinação férrea, cega… tóxica.
“Adeus”, foi tudo o que ocorreu dizer a Eunice.




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