domingo, 24 de fevereiro de 2013

Ester

(Conto original, apresentado pela 1.ª vez na “Tertúlia de Poesia”, realizada em 23/02/2013, pelas 15h30, nas instalações da ARPIVALE, no Vale de Santarém.)





            Três, elas eram três.
            Justina, Judite e Juliana.
            As preferidas, as mais que tudo.
            Martinha só tinha olhos para aquelas três, mas havia mais – oh, se havia…
            Claro está, todo aquele descarado favorecimento dava azo a uma ciumeira sem fim. Afinal, o que é que aquelas três teriam de tão especial, tão único, que as diferenciavam de todo o resto?
            Mas isso era uma pergunta à qual ninguém podia responder. Só Martinha o sabia e podia dizer. Mas ela fechava-se em copas, por assim dizer.
            Até parecia de propósito.
            Sim, se calhar até era isso: se calhar, Martinha até distinguia aquelas três de propósito, sabendo de antemão o mau ambiente que isso iria causar.
            Mas nem mesmo essa desconfiança, aliada a uma forte probabilidade, aliviou a cada vez mais insistente animosidade para com Justina, Judite e Juliana.
            E a liderar toda essa revolta, estava Ester.
            Ela, mais que ninguém, não gostou da súbita chegada de Justina, Judite e Juliana.
            Ela, mais que ninguém, como que sentiu bem no fundo de si, qual bofetada inesperada, a preferência com que Martinha agraciava aquele trio.
            E ela, mais que ninguém, sentiu-se preterida. E ignorada. Pois até à chegada daquelas três, era ela, Ester, a preferida. A mais que tudo.
            Mas quem é aquele trio armado ao pingarelho, pensava que era?
            Ester sentia-se, acima de tudo, injustiçada. E magoada. Mesmo muito magoada. E confusa, pois então. Teria ela feito ou dito alguma coisa, que pudesse justificar aquela atitude de Martinha?
            Para além de todo este imenso turbilhão de sentimentos que assolava Ester, havia mais uma coisa, só uma coisinha, na verdade uma palavra, que muito a afligia: e a palavra era essa mesma: sentimentos.
            Até então, Ester sempre se tinha sentido imune a essa coisa para ela ainda desconhecida: na verdade, isso incomodava-a valentemente: mas ela podia sentir?!...
            Ester preferia não o fazer. Mas para grande surpresa dela, não é que ela tivesse grande hipótese de escolha. Ester sentia e pronto. Ponto final. Parágrafo.
            Assustada. Ester não tinha quaisquer problemas em admitir que estava assustada. Mais do que isso: Ester estava muito assustada, aterrorizada mesmo.
            Ela já tinha visto, em primeira mão, o que ser capaz de sentir podia fazer: quantas e quantas vezes Martinha não tinha já adormecido, a chorar, abraçada a ela?...
            Era verdade que isso já não acontecia. Não, agora só aquelas três, Justina, Judite e Juliana, pareciam contar. Se bem que Ester nunca       tivesse visto Martinha adormecer abraçada a elas… Não, ao invés disso, eram só risinhos idiotas.
            Bah!... O que era isso, comparado com o que ela, Ester, já tinha partilhado com Martinha? Ou melhor dizendo, compartilhado?
            Só ela e não Justina, Judite e Juliana, tinha visto Martinha no seu melhor e no seu pior; só ela e não Justina, Judite e Juliana, tinha sido cúmplice de Martinha nas horas boas e nas horas más.
            Portanto, bem vistas as coisas, Ester não tinha motivos para ter ciúmes de Justina, Judite e Juliana.     Pois ela, só ela e mais ninguém, podia dizer, não sem indisfarçável orgulho, que Martinha a tinha escolhido para ombro amigo.
            Está bem, a escolha de Martinha tinha mudado; já não era ela, Ester, mas sim aquelas três, Justina, Judite e Juliana.
            Mas isso não interessava.
            Isso podia mudar.
            Através dos seus olhos grandes violeta profundo extremamente pestanudos, encimados por umas sobrancelhas perfeitamente desenhadas numa carinha redonda bonita de plástico, na prateleira onde estava colocada, Ester observava.
            E esperava.







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