quarta-feira, 7 de maio de 2014

A soma das partes



Era uma noite incerta, com a lua a querer jogar às escondidas com as nuvens que teimavam em não querer deixar brilhar o firmamento que se estendia para além daquele véu espesso de cor escura.
Ele era bom. Mas bom mesmo. De todas as maneiras e feitios. Em todos os sentidos da palavra. Chamava-se Ananias.
Ela chamava-se Genoveva, mas todos a conheciam por Biqueira Larga. Larga, porque ela era grande – quer em altura, quer em largura. Biqueira, porque como o nome dela era Genoveva, alguém um dia fez esta brincadeira: Genoveva – Génova, Génova – Itália, Itália – bota, bota – biqueira. A coisa pegou e ficou. Biqueira. Larga.
Quando finalmente se conheceram, nada aconteceu: a terra não tremeu, o vento não assobiou, o céu não chorou, o universo não se moveu. Nada.
A noite não se transformou em dia e continuou Incerta, com a lua, impávida e serena, a teimar em jogar às escondidas com aquelas nuvens escuras, que pareciam continuar querer a não deixarem as estrelas, frias e distantes, iluminarem, ainda que fugazmente, aquele imenso quadro negro.
Eram dois completos estranhos um para o outro, nunca se tinham visto ou ouvido – pelo menos, que tivessem dado por isso –, mas a partir daquele preciso momento, isso ia mudar.
Foi por acaso, um completo acaso. Poder-se-ia dizer, se assim o desejarem e acreditarem, que tinha mesmo que ser, estava escrito.
Talvez... Quem sabe?
Ele, Ananias, bonito com uma alma boa, doce.
Ela, Genoveva… igual a ela mesma e o oposto dele.
Se ele era o dia quente e claro, a banhar de luz a terra, ela era a noite fria e escura, quadro preto sem traço de giz. Se ele era a manhã, promessa por cumprir, ela era a tarde, certeza já fechada. Se ele era o sol, ela era a lua.
Diferentes, tão diferentes… e iguais, tão iguais.
Como duas gotas de água.
Quando finalmente se conheceram, imediatamente ficaram amigos. Se, até aí, qualquer coisa parecia faltar a cada um deles, isso tinha acabado. Agora, sentiam-se completos. Ou quase.
Adoravam estar juntos. E quando não o estavam, literalmente contavam os minutos, segundos, instantes, momentos, que faltavam para estar um com o outro. Mais do que isso, do que estar um com o outro, eles queriam estar juntos. Não era bem querer, era mais do que isso: era precisar. Eles, Ananias e Genoveva, precisavam de estar juntos. Quando não o estavam, por muito curto que fosse o espaço de tempo, a eles parecia-lhes interminável, infinito, insuportável, impossível de esperar que passasse. Parecia que lhes faltava o ar para respirar.
E foi essa necessidade absoluta um do outro, que os levou a aperceberem-se que aquilo, aquele laço muito apertado, aquele nó indestrutível, que os ligava, ia muito para além do que, até ali, qualquer deles julgava possível.
Nenhum deles podia, em consciência, dizer que tinha sido o primeiro a saber.
Em boa verdade, foi… simultâneo.
Ao mesmo tempo.
Olharam-se, primeiro andaram, depois correram um para o outro, viram-se bem no fundo do outro e souberam. Descobriram.
Aquilo que os unia.
Não era só amizade, ia muito para além disso.
Paixão, sim, também os consumia – não valia a pena negar.
Mas o que era mesmo, não se via. Tão pouco se nomeava.
Apenas se sentia.
           



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