terça-feira, 3 de maio de 2016

Uma coisa cor de burro quando foge

O provérbio diz que “O sol, quando nasce, é para todos”, mas George Orwell[1] escreveu que “Todos os animais são iguais, mas alguns são mais iguais do que outros”[2].


Alex tentou disfarçar as lágrimas que teimavam em querer cair dos seus olhos com uma força incontrolável, ao mesmo tempo que lutava, de uma forma quase inglória, contra uma avassaladora, arrebatadora e arrasadora vontade de chorar.
“Não posso chorar” era tudo o que passava pela mente de Alex “Não posso chorar, ou vão gozar comigo”.

Tinha sido sempre assim: toda a sua vida, desde que se lembrava de ser gente, aquele sentimento de não só ser uma peça de puzzle contínua e teimosamente fora do sítio, como também de desesperadamente querer encaixar, nem que fosse no sítio errado.

O seu nome, Alex, era, à falta de melhor palavra, apropriado.
Alex, um nome unissexo. Ou sem sexo.
Tal como Alex. Exactamente como Alex. Literalmente.

Alex não tinha sexo. Nem órgãos genitais, nem órgãos reprodutores.
Era completa e totalmente assexuado. Ou assexuada.
Sem género.
Sem gender[3]. Sem génos[4].
A-gender. A-génos.

Simplesmente tinha nascido assim.
Porquê?
Ninguém sabia.

Alex foi uma criança abandonada à nascença.
Mas Alex não culpava os pais.
Na verdade, até os compreendia.
Quem iria querer ser pais de uma criança sem género, sem sexo que a definisse?
Uma criança assexuada – uma aberração da natureza.

Essa característica – ou falta dela, dependendo do ponto de vista – tinha regido, ou melhor dizendo, assombrado toda a sua vida.
Por causa dela, Alex não tinha podido frequentar a escola.
Tinha tido aulas em casa. Ou orfanato. Ou lar de acolhimento.
Também nunca família alguma quis adoptar Alex.
Quer-se dizer, querer, até quiseram. Houve famílias que até mostram algum interesse. Mas mal tomavam conhecimento da singularidade muito peculiar de Alex, logo recuavam nesse mesmo interesse.

Enquanto crescia, como forma de combater a imensa solidão e dor que assolava e corroía Alex, começou a imaginar, mais do que isso, a sonhar que a sua… excentricidade significava uma evolução, o aparecimento de uma nova espécie, o passo seguinte da humanidade.
E Alex era o primeiro caso, pelo menos que se soubesse. Um caso pioneiro.

Mas mesmo isso não impedia Alex de se sentir a afogar, cada vez mais, nas areias movediças que representavam a sua existência.

Toda a sua vida se resumia a um grande ponto de interrogação, enorme confusão, infinita trapalhada.
O seu dia-a-dia era inundado das mais pequenas coisas que, para qualquer outra pessoa, eram de tal maneira irrelevantes, que se tornavam praticamente insignificantes. Por exemplo, sempre que tinha que preencher um qualquer formulário, quando chegava à famigerada questão sobre o sexo, paralisava: e agora, feminino ou masculino, já que estas eram as únicas hipóteses?... Também sempre que Alex tinha que ir a uma casa de banho pública, coisa que evitava ao máximo, parecia que o tempo ficava suspenso: homens ou mulheres?
Chegou ao ponto de Alex invejar, mas invejar a sério, todos os homens e todas as mulheres: esses sabiam quem eram, pelo menos a nível de género. Neste sentimento de inveja, Alex incluía também os transsexuais, pois esses também sabiam quem eram: podiam ter nascido no corpo errado, mas tinham consciência disso.
Mas Alex não tinha sexo. Era superior a isso. Ou inferior. Provavelmente inferior.
E então, a inveja. Mas não era uma inveja malévola. Não, era antes uma inveja… passiva.
Mas havia um pequeno grupo de pessoas de quem Alex não sentia inveja. Não, por esses sentia antes outra coisa: empatia. Os hermafroditas. Esses também deviam sentir o mesmo que assolava Alex. Só que, ao contrário de Alex que não tinha género, os hermafroditas tinham os dois, masculino e feminino.

Alex não tinha amigos. Nunca tinha tido.
Na infância, quando mais tinha necessitado e procurado, sempre o tinham perentória e ferozmente afastado, quiçá devido à sua… diferença.
Essa crueldade e indiferença ficaram gravadas a ferro e fogo na sua alma, de tal maneira que nunca mais Alex se atreveu a procurar qualquer outra forma ou tipo de contacto humano.
Desenvolveu uma espécie de carapaça, uma armadura, para defesa dos golpes que ainda tinha que enfrentar.

Uma das coisas que mais assustava Alex eram os pesadelos que teimavam em fazer-lhe visitas, sempre e cada vez mais indesejadas.
Quando Alex estava mais à mercê de quem ou o quer que fosse e sem quaisquer hipóteses de defesa, os pesadelos apareciam, saltando, sem apelo nem agravo, de sabia-se lá de onde.
Sempre à noite, quando Alex conseguia finalmente adormecer. Parecia de propósito: sabiam sempre quando Alex estava mais vulnerável e aproveitavam-se dessa mesma vulnerabilidade, ao mesmo tempo que se divertiam.
E Alex voltava a ver e a sentir o que tanto se esforçava para esquecer: os risos, os olhares de troça, os cochichos…

Alex também sonhava, mas não se atrevia a partilhar os seus sonhos.
Sonhava com um mundo mais tolerante, onde a diferença não fosse sinónimo de ostracismo.
Um mundo onde todos pudessem caminhar lado a lado.
Um mundo onde imperasse o respeito pela individualidade de cada um.

Anos mais tarde, soube que Alex começou apenas por ser um diminutivo carinhoso que os seus pais lhe chamavam, antes do nascimento.
Como os pais não pretendiam saber se ia ser menino ou menina, chamavam-lhe Alex, que tanto dava para um lado, como para o outro.
Alex: Alexandre ou Alexandra.
Mas eis que chega a hora do parto chega e Alex nasce, uma criança recém-nascida pronta e cheia de vontade de gritar “olá, cheguei” ao mundo.
E agora, Alexandre ou Alexandra?
Bem, na verdade, nem uma coisa, nem outra.
Alex, apenas Alex.
Nem menino, nem menina.
Apenas uma… coisa.
Uma coisa cor de burro quando foge.



[1] De seu nome verdadeiro Eric Arthur Blair, mas mais conhecido pelo pseudónimo George Orwell, foi um escritor e jornalista inglês (25/06/1903 – 21/01/1950).
[2] Livro “O triunfo dos porcos” (“Animal farm”), 1945.
[3] Palavra “género” em latim.
[4] Palavra “género” em grego.

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