quinta-feira, 9 de abril de 2015

Cabra-cega

E
ra óbvio!
De tal maneira era óbvio, que Guiomar se admirava por ainda mais ninguém o ter notado. E se o tinham notado, ainda ninguém o tinha dito.
Mas era tão óbvio… Saltava à vista!

Que Vasco estava perdido de amores por Rita, não era segredo: todos o sabiam e sabiam-no bem.
Agora, que Camila, uma das melhores amigas de Rita, também estivesse interessada em Vasco, parecia que só ela, Guiomar, conseguia ver.
Guiomar até chegou a falar disso a Sílvia, uma amiga comum.
Ouve lá, é impressão minha ou a Camila gosta do Vasco?
O quê?!... Mas tu estás doida?... A Camila gostar do Vasco?... Nem pensar!... Mas também, onde é que raio fostes buscar essa ideia?
A lado nenhum. Devo estar enganada.
E a coisa ficou por ali.
Guiomar não falou mais no assunto.

Não falou, é verdade que não falou, mas pensou.
Também é verdade que não o queria, mas tinha mesmo que o fazer.
A isso se via obrigada.
É que era tão óbvio…
Guiomar questionava-se de como era possível mais ninguém se aperceber, mais ninguém ver.
É que saltava mesmo à vista.
Mas parecia que mais ninguém via, ou melhor, queria ver.

E Guiomar bem via a dor, com alguma culpa à mistura, espelhada no olhar de Camila, sempre que Vasco se aproximava de Rita.
Sim, culpa.
Porque Guiomar adivinhava que Camila, para além de gostar de Vasco, também se sentia muito culpada por isso mesmo: afinal, Rita era a sua melhor amiga.

Quer dizer, Camila realmente sentia culpa, mas não era uma culpa, por assim dizer, culpada.
Não era intencional.
Camila não queria gostar de Vasco… mas gostava.
E mais ninguém sabia.
Nem nunca poderiam.
Porque Camila não sabia o que ia acontecer, mas de uma coisa tinha a certeza: Vasco gostava de Rita.
E isso era tudo o que interessava.



Nota: Qualquer semelhança com a coincidência é pura realidade.

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