terça-feira, 6 de março de 2012

Praticante militante (História num parágrafo)


Ele não tinha nome, ele era… ele. Só e apenas. Vivia sozinho numa casa pequena, longe de todos, mas perto de tudo. Podia não ter muitos amigos, mas tinha muitos conhecidos. E era muito popular, muito requisitado para tudo e mais alguma coisa. Naquele dia, ele abriu os olhos ainda no meio da escuridão: percebeu que se tinha estendido na cama ainda com a roupa da véspera e assim, tal e qual, se tinha deixado adormecer. Devia ter sido uma noitada e peras, uma autêntica festança, mas de nada ele se recordava. Apenas sabia que a sua cabeça latejava e que todos os ruídos, mesmo os mais surdos, lhe soavam como verdadeiros gritos. Lancinantes. Apesar de a sua mete se assemelhar a uma folha em branco, pelo menos em relação à noite passada, uma coisa ele sabia: aquele dia era Domingo. E não tinha que se preocupar em ir trabalhar. Mas tinha que se preocupar com outra coisa: aquele dia não era só Domingo, era também Dia do Senhor. Como tal, tinha um encontro colectivo marcado na igreja: a celebração da Missa. Sim, era verdade: para além de boémio militante, ele era também católico praticante. Assim, todos os Domingos e dias santos, ele tinha um encontro marcado com o Senhor. Quer dizer, todos os dias santos, não é bem assim. Todos os dias santos são todos os dias e ele não era assim tão praticante. Não. O mais correcto seria dizer todos os Domingos e Feriados Religiosos. Assim, sim. É mais correcto. Mas como era ainda muito cedo, ele ainda ficou na cama a preguiçar: não se atreveu a adormecer, pois podia deixar passar a hora… Quando ele começou a sentir a claridade do dia a querer instalar-se no seu quarto, levantou-se e pensou que um valente duche lhe faria bem. Enquanto fazia a barba, reparou nas olheiras carregadas que se faziam notar. Vestiu-se com aprumo e cuidado. Tentou engolir uma espécie de pequeno-almoço. Antes de sair para a rua, teve o cuidado de pôr os seus óculos escuros de uma qualquer marca na moda, a fim de esconder as olheiras fundas. E foi. Chegou à igreja ainda cedo para a Missa: faltava cerca de meia hora. Tanto melhor, pois era assim que ele gostava: tinha tempo para falar com as pessoas e pôr as cusquices em dia. Sim, porque essa ideia de que os homens não apreciavam uma boa cusquice, era inteira, redonda e completamente falsa. Depois da Missa, ele foi para casa. Engoliu qualquer coisa a fazer as vezes de almoço e como não lhe apetecia fazer nadica de nada, não obstante o terem convidado para sair (“Anda com a gente, vai ser giro”, “Não sei…”, “Anda lá”, “Acho que não”, “Vá lá, não sejas desmancha-prazeres”, “Não, não posso. Fica para a semana. Olha, vão vocês”), esparramou-se em frente à televisão e por ali ficou toda a tarde. Viu filmes que já tinha visto e revisto, mas nem isso o fez sair daquela letargia. Para quê? Não valia a pena. Amanhã seria outro dia e teria muito tempo para fazer o que quer que fosse. 

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