quinta-feira, 1 de março de 2012

... não devia, mas era


        Mais que descansada, Madalena sentiu-se aliviada.
        Muito aliviada, mesmo muito.
        Tal e qual aquele alívio que se experimenta depois de se ir àquele–sítio–que–vocês–sabem.
        Verdade seja dita e redita, Madalena sentia-se envolver, afundar naquele sentimento, naquela sensação. Só que voluntariamente. E de bom grado.
        Era tão bom...

        Estava feito.
        Para o bem e para o mal, estava feito.
        A partir dali, já bem pouco, ou mesmo nada, importava. A coisa estava feita e quem não gostasse que se danasse: que comesse menos e pusesse à bordinha do prato, a ver se ela, Madalena, se importava... É o importas!!!...

        “Psst!... Psst!...”
        Mas que raio..., Madalena pensou para com os seus botões, que por acaso nem os tinha.
        “Menina, ó menina!”
        Ela quase que se assustou com aquela voz... Ali, bem no meio daquela imensidão feita de verde, Madalena julgava-se sozinha, mas isso não acontecia. Um homem, já mais para o entradote que para o rapaz novo, aproximava-se dela em passo de corrida – mas uma corrida um tanto ou quanto lenta.
        Quando finalmente o tal homem chegou ao pé dela, o coitado já deitava os bofes pela boca. E Madalena pode constatar que ele envergava uma espécie de farda.
        “A menina...” Ele começou a dizer, enquanto aspirava grandes quantidades de ar. “A menina... sabe quem eu sou?”
        “Não.” Madalena afirmou com sinceridade, depois de o observar bem.
        “Sou o guarda do parque.” Ele identificou-se, não sem uma ponta, ou melhor, muitas pontas de orgulho, reveladas pelo enchimento do peito de ar.
        “Sim?...”
        “Sim.” Ele confirmou.
        “E daí?” Ela quis saber.
        “E daí?!...”
        “Sim, e daí?” Madalena repetiu. “O que é que eu tenho a ver com isso?”
        “O que é que a menina...” O homem começou a repetir, mas abruptamente interrompeu-se. “Ora essa, tem tudo!” E continuou “A menina por acaso sabe, tem consciência do que acabou de fazer?”
        “Eu?...” Madalena fingiu-se admirada. Seguidamente, com quantos dentes tinha na boca – que eram muitos: a dentição completa –, mentiu “Não.”
        “O quê?...” O homem quase gritou. Mais calmo, continuou “A menina está a gozar comigo, não está?”
        “Eu?!... Não, não. Juro que não.” Madalena disse, com a cara mais séria e inocente que conseguia fazer.
        Houve um momento de silêncio.
        “Bom”, o homem começou a falar “desta vez passa, mas para a próxima...”

        Novamente só, Madalena riu de si para si.
        Porque ela sabia muito bem o que tinha feito.
        Mas também, a culpa não era dela. Ou melhor não era só dela.
        Se responsabilidade fosse um bolo, a fatia dela havia de ser a mais pequenina e fininha de todas. Sim, porque a maioria, a chamada parte–de–leão, pertencia a todos aqueles que tinham pensado naquele sítio: arquitectos, ideólogos, e outros tantos da mesma raça.
        Mas aquilo não lembrava a ninguém, muito menos ao diabo.
        Olhem, tivessem feito mais casas de banho. Ou lavabos. Ou “W.C.”. Ou “toilettes”. Ou outra coisa qualquer.
        Porque há falta delas...

        Como é que o homem também tinha dito?...
        Ah, sim... Que aquilo não se podia fazer...

        Não se podia?... Ora essa!...

        Poder, podia...


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