quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Uma simples história (mas não de amor)

(Aqui vai a 4.ª parte do meu projecto, “Sete para sete”.)



“Uma simples história (mas não de amor)”
(Quarta-feira)

            Na língua inglesa há uma frase: Better to have loved and lost than never to have loved at all.[1]
            Que é como quem diz: é melhor ter amado e ter perdido, do que nunca ter amado.
            É mentira.
            Acreditem-me, eu sei.

            Já amei muitas vezes.
            Não amor paixão, mas amor amor.
            De todas as maneiras e feitios.
            E sempre perdi. De todas as vezes perdi.
            E sempre sofri. De todas as vezes. Muito.

            Tudo começou quando cheguei a este mundo, no ano da graça de Deus Nosso Senhor de não sei quantos e troca o passo.
            Não sei porque vim: não pedi para vir e tão pouco era desejada a minha presença.
            Mas vim e contra factos não havia argumentos: eu estava cá. E agora?
            Lembro-me de ser vista como um embaraço e considerada um empecilho.
            Não era amada, pelo que eu julgo isso ser, mas amava.
            Era mais forte do que eu: por vezes penso que foi só para isso que eu apareci neste bendito mundo: para amar. Sempre. Mais e mais.
            Chamaram-me Alice.
            Enquanto criança nunca me foi permitido conviver com outras crianças e, assim, aprendi a amar o que me rodeava: as paredes amarelo claro do meu quarto, o tecto branco, as cortinas às flores azuis já um tanto ou quanto ruças pelo sol que batia na janela quando o tempo estava bom, a minha cama de ferro forjada antiga… Tudo isto era o meu mundo e mais os livros que eu lia um atrás do outro. Mas tive os melhores amigos que se pode desejar: vivi aventuras com os Cinco, estudei com as Gémeas, raciocinei com Sherlock Holmes, suspirei com Romeu, chorei com Julieta… Meu Deus, que vida boa, a que eu julgava ter.
            Nunca fui à escola: tudo o que sei aprendi-o sozinha, sem mestres de espécie alguma.
            Alice, nunca Alicezinha, ou Alicinha.
            Alice Maria, sempre, numa voz de leito de rio já seco há muito tempo, tanto, que já nem sabia o que era água.
            Quando finalmente comecei a questionar tudo o que me rodeava, perguntei àquela senhora a quem eu sempre fui ensinada a chamar de “senhora minha mãe” porque é que nunca me era permitida sair do meu quarto. E mesmo naquela muito tenra idade, eu soube, ainda antes de acabar de formular a questão que tanto me atormentava, que tinha cometido um erro muito grave, pois a senhora muito alta e muito magra toda vestida de negro primeiro ficou muito quieta com o olhar, muito claro, quase transparente, perdido na janela fechada por causa da chuva e do vento, depois dobrou-se sobre si mesma como que acometida por uma dor intensa e, finalmente, virou-se para mim muito pálida e, sem uma só palavra, esbofeteou-me com quanta força tinha – ou pelo menos assim me pareceu, tal o estalo.
            Lembro-me de ficar estarrecida.
            Até aí, nunca ninguém me tinha batido, ou infligido qualquer castigo, corporal ou não. A bem da verdade, nunca ninguém me tinha sequer tocado. De qualquer maneira ou feitio.
            E agora, aquela mulher, a senhora minha mãe, batia-me.
            Bateu-me, mas não me respondeu.
            Sem mais qualquer palavra, nem sequer um olhar, saiu, muito direita, com aquele olhar claro, quase transparente, perdido algures. Ou nenhures.
            Creio que fui o que pode chamar de uma criança precoce, pois cedo, muito cedo ainda, senti, ou melhor, soube, que eu não devia estar ali, não devia ser.
            Toda a minha existência era um erro. Flagrante. Gritante. E isso era claro. Até para mim. Especialmente para mim.
            Talvez advenha daí a minha paixão pelos livros.
            Alguém um dia disse “Ler, ler, viver a vida por outros sonhada”. E é verdade. Para mim era e ainda é. A única verdade.
            De qualquer maneira, a partir daquele momento, da bofetada, senti que já nada era igual. Tudo tinha mudado.
            Aquelas paredes fecharam-se inexoravelmente sobre mim, e o até aí meu mundo caiu por terra. Das suas ruínas brotou, qual fruto da terra, a minha prisão. A minha masmorra. O meu cárcere.
            Eu já não vivia. Estava presa. Exilada. Desterrada.
            Mas o pior, é que eu não sabia qual a minha culpa.
            E fiquei doente.
            Mas doente mesmo.
            Caí à cama, e tudo.
            Mas nem mesmo assim aquela solidão que me roía por dentro foi aliviada.
            No alto do meu delírio aconteceu o Lourenço.
            Não posso precisar os pormenores, mas sei dizer que assim de repente, sem menos nem mais, como que vindo das mais secretas profundezas de mim, da minha alma, ele se materializou à minha frente: o Lourenço.
            Da primeira vez que ele aconteceu, nada disse: apenas ficou a olhar para mim, deitada na minha cama, uma doçura extrema espalhada em todo o seu muito belo rosto, uma ternura infindável latente nos seus olhos expressivos, uma preocupação sincera irradiada de toda a sua presença.
            Sem mais, adormeci descansada, pois no mais íntimo de mim sabia que ele ia velar pelo meu sono, bilhete de ida para fora daquele lugar. Com volta marcada. Inevitavelmente.
            Não sei aonde fui, mas sei que gostei de ir. E que tive pena de voltar.
            Já completamente desperta, mas com os olhos teimosamente fechados, convenci-me que aquele personagem avistado tinha sido por mim idealizado, sem dúvida consequência das febres altas que então me assolavam.
            Abri os olhos e vi-o.
            Lá estava, novamente. Ou ainda.
            Desta vez, sorria, com aquela expressão doce, doce que eu já lhe conhecia.
            E falou.
            Disse “Olá, eu sou o Lourenço”
            Assustada, tentei sentar-me na cama, mas faltaram-me as forças, de tão debilitada que estava.
            “Não, não... Não te assustes, peço-te. Não te vou fazer mal”
            Tentei falar, mas tudo o que consegui sussurrar foi “C-C-Como?...”
            Ele sorriu de novo, com aquele sorriso radioso “Não te preocupes”
            Sorri também, ou pelo menos tentei, e apresentei-me “Alice”
            Ele só disse “Eu sei”
            Depois disto, já não sei o que aconteceu. Só sei que caí numa espécie de torpor, que é aquele estado em que ainda não se perdeu por completo a consciência, mas que também não se está totalmente acordado: é algo no meio, um estado intermédio: um torpor, enfim.
            Não sei quanto tempo estive assim, mas lembro-me de ouvir vozes lá longe, muito longe, e de ver alguns vultos. Mas não sei se isso foi verdade, ou fruto do meu delírio. E continuo sem saber.
            Quando finalmente despertei, olhei em volta à procura dele. Não o vi, não o encontrei. Até onde me era permitido alcançar, ele não estava. Ao ver-me ali sozinha, convenci-me que tudo tinha sido uma miragem, uma resposta da minha mente às preces do meu coração.                   
            Chorei.
            Não tenho vergonha de o dizer. Chorei muito, muito mesmo.
            Chorei pela perda de um amor.
            Depois disto, a minha recuperação foi relativamente rápida, com o meu restabelecimento a evoluir a olhos vistos.
            Muito gostava de dizer que tal era motivo de grande alegria para a única pessoa a quem me era permitido aceder, a senhora minha mãe, mas infelizmente isso seria mentira, pois na verdade, o que me foi dado a sentir foi uma extrema desilusão pelo facto de eu não ter sucumbido ao que me atacou.
            Lamentei, lamento, e hei-de lamentar sempre esta atitude daquela senhora, a senhora minha mãe, pois não obstante toda a distância que ela insistia pôr entre nós e toda a frieza com que ela me tratava, eu amava-a. Sim, eu tinha amor àquela mulher – ainda tenho –, pois que outro sentimento se pode ter por uma mãe?... Afinal, foi ela que me gerou, que me deu vida e me deu à vida.
            Mas sofro com este amor, sofro muito.
            Mesmo hoje, já passado sabe Deus quanto tempo, ainda sofro. Por causa deste amor.
            Continuei encerrada naquele quarto, sem qualquer direito a outras visitas que não a senhora minha mãe, ainda por muito tempo, pois algo se passou dentro mim: perdi as forças para questionar da razão do meu encarceramento, para lutar pela minha tão almejada, desejada, sonhada libertação.
            Foi como que se a minha doença tivesse sugado toda a minha essência.
            No fundo, no fundo e, o que eu vejo agora, é que eu desisti de tentar saber. Ou melhor, quis desistir. A continuar, havia sempre a hipótese de conseguir. E a ter sucesso, esfumava-se para sempre a possibilidade, ainda que ténue, de reencontrar o Lourenço.
            Outra vez o Lourenço.
            Ainda o Lourenço.
            Aquele meu estado letárgico ainda se prolongou no tempo, muito para profundo alívio da senhora minha mãe, pois se a minha presença sempre tinha sido um incómodo e um estorvo, agora tais factos eram cada vez mais evidentes. E contra factos não havia argumentos.
            Mas numa das suas poucas visitas, algo aconteceu: de repente, sem qualquer aviso prévio, fui como que sacudida por algo ou alguém – Lourenço?
            “Mãe” assim mesmo, nada de senhora minha mãe. “Mãe” voltei a chamar.
            Surpreendida por me ouvir dirigir-se-lhe desta forma, ela apenas olhou para mim.
            “Porquê?” foi tudo o que consegui dizer, não obstante as mil e uma questões que se levantavam à minha volta, e para as quais eu sabia ter direito a uma resposta.
            Sem uma única palavra, sem um único som, ela levantou-se e saiu do quarto.
            Voltou pouco depois, trazendo debaixo do braço esquerdo uma grande caixa de papelão.
            Sempre num silêncio quase sepulcral, deixou a caixa e voltou a sair.
            Após um primeiro momento de surpresa, aproximei-me da caixa e abri-a.
            Lá dentro estavam velhas fotografias amarelecidas pelo tempo, um molho de cartas antigas atadas por um cordel e o que parecia ser um diário. Estavam também vários recortes de jornais.
            Passei o resto do dia a analisar tudo aquilo que me era apresentado.
            E então soube.
            A minha mãe, a senhora minha mãe, chamava-se Helena e era a única filha dos meus avós, pessoas muito ricas e influentes. Era ainda extremamente formosa, o que contribuía grandemente para enriquecer a já de si farta lista de pretendentes.
            Mas como filha única que era e ainda por cima de uma família muito rica e muito importante, cedo os meus avós tiveram o cuidado de começar a preparar o casamento da minha mãe, pois ela não ia casar com qualquer um. Não. Um passo tão importante como aquele tinha que ser decidido pelos pais, pois se alguma vez a menina ia ter o discernimento de saber escolher... Nem pensar!...
            Depois de muito apurada busca, apareceu finalmente o que parecia ser o candidato ideal: Francisco Lacerda, filho de banqueiros e, mais importante, único herdeiro de toda uma imensa fortuna.
            Após todas as conversações e acordos, só faltava uma coisa: que os noivos se conhecessem, mas a mãe de minha mãe, a minha avó materna, descartou essa hipótese: conhecerem-se antes do casamento, que disparate...
            Entretanto e enquanto estas negociações tinham lugar, a minha mãe começou a tomar-se de amores pelo novo jardineiro.
            Ele era belo, tinha um olhar doce, doce, e foi isso que começou por cativar a minha mãe.
            Subitamente, a minha mãe começou a manifestar grande interesse pela jardinagem e por tudo o que lhe dizia respeito.
            A minha avó não estranhou este repentino interesse da minha mãe, mais e mais acrescido. Muito antes pelo contrário: até o encorajou.
            Quase sem saber como, a minha mãe e o jardineiro tornaram-se amantes, tudo sem os meus avós sequer desconfiar.
            Mas mãe é sempre mãe e, quando a minha mãe engravidou, a minha avó soube-o primeiro.
            Após a minha avó ter tentado descobrir junto de minha mãe de quem era a criança que ela trazia no ventre e, após as recusas obstinadas da minha mãe em revelar o nome do pai da criança, a minha avó só viu uma solução: apressar o casamento de minha mãe com Francisco Lacerda, pois numa família tão ilustre como a dos meus avós não podia haver um nascimento fora do casamento. Nunca. Jamais. O escândalo seria insuportável por demais.
            Casamento?!... Era a primeira vez que a minha mãe ouvia falar de tal coisa.
            Sim, casamento, ela que não se preocupasse, que ia dar tudo certo. Tinha que dar.
            Mas... e o pai, o meu avô materno?...
            Deixasse estar, que com o pai, marido dela, se preocupava ela. O que a minha mãe não podia fazer, de maneira alguma, era revelar a sua gravidez. A ninguém. Pelo menos, antes do casamento.
            Então, e ia casar assim, grávida?... O futuro marido não ia perceber?...
            Não, se ela soubesse bem fazer as coisas...
            Então e quando o bebé nascesse, ele ia com certeza perceber que havia algo de errado...
            Não ia nada, o bebé apenas tinha nascido antes de tempo, só isso...
            Apesar da minha mãe nunca ter revelado a identidade de quem tinha gerado, juntamente com ela, a criança que carregava no ventre, a verdade é que logo imediatamente a seguir os serviços do jardineiro foram dispensados, para nunca mais a minha mãe o voltar a ver e ficando para sempre o mesmo sem saber que ia ser pai.
            Á medida que a data do casamento se aproximava, a minha mãe ia ficando mais e mais nervosa e para isso muito contribuía a recusa obstinada da minha avó em conceder à minha mãe o que ela almejava, conhecer o futuro marido, não obstante as insistentes tentativas para obter permissão.
            Essa agora, casar sem conhecer o futuro marido... Para bem, ela nem ia saber quem era o noivo... Havia de ter graça, entrar na Igreja para casar, à procura do noivo...
            Helena!... Então mas isso eram maneiras? Era essa a educação que eles, os pais, muito se tinham esforçado que a menina recebesse?... Ai,  ai, ai...  E depois, que conversa mais sem pés nem cabeça... É claro que ela ia saber quem era o noivo: ia ser o que estivesse no altar...
            Escusado será dizer que o pai de minha mãe, o meu avô materno, estranhou e não tão pouco como isso, aquela urgência súbita em casar, mas limitou-se a encolher os ombros, pensar «mulheres!» e fazer tudo o que a minha avó mandava. Mal imaginava ele que por trás daquela «pressa desenfreada», como ele dizia, em casar, havia um forte e premente motivo: a minha mãe tinha que casar antes da barriga se começar a notar, pois apesar da sua extrema elegância, não ia ser possível esconder a situação por muito mais tempo...
            Mesmo com todos os conselhos e indicações da minha avó em como proceder na noite de núpcias de maneira a evitar que o marido dela não sequer desconfiasse que ele já não era o primeiro homem da sua vida, a minha mãe estava nervosa.
            Esteve-o durante toda a cerimónia, continuou na festa que se seguiu e, à medida que a noite, a tão temida noite de núpcias, se aproximava, esse mesmo nervosismo tornou-se por demais evidente.
            O agora marido de minha mãe, Francisco Lacerda, também notou esse nervosismo, mas considerou-o normal. Afinal, a minha mãe sempre era uma noiva a caminho da sua primeira noite com um homem. Mas ela estava tão bonita, tão etérea, que ele não a ia magoar. Ia ter cuidado e ser gentil. Sim.
            Mas o sentimento que assolava a minha mãe não era tanto o nervosismo: era mais medo. Pavor. Terror. E se ele, o marido, descobrisse? Ou sequer desconfiasse?
            Tinha razão a minha mãe em ter medo.
            Porque ele desconfiou. E descobriu.
            Nessa primeira noite, ao tentar consumar a união dos corpos, o marido de minha mãe constatou que ela já não era virgem. Ele não era o primeiro.
            Ao questionar a minha mãe se aquilo era mesmo verdade, se ele já não era o primeiro, o marido deparou-se com uma barreira de silêncio.
            E então assumiu que sim, que a minha mãe já tinha dormido com outro, ou outros, homens.
            Furioso, a primeira reacção dele foi levá-la de volta e devolvê-la aos pais. Mas logo a seguir raciocinou que tal não podia ser: iria ser um escândalo e o bom nome da sua família não se podia sujeitar a tal coisa.
            Friamente decidiu que continuariam casados, mas que levariam vidas separadas intimamente: viveriam na mesma casa, dormiriam debaixo do mesmo tecto, mas nada mais. Fora de casa irradiariam felicidade, mas dentro de casa seriam dois estranhos. E a situação assim se manteria, até que a minha mãe decidisse confessar. Talvez aí, mas só talvez, o marido lhe perdoasse o mau passo...
            A minha mãe nunca confessou.
            E assim começou uma vida no mínimo estranha, bizarra: fora de casa eram as pessoas mais felizes do mundo, dentro de casa nem se falavam.
            A coisa piorou quando o marido notou que a minha mãe estava a engordar.
            “Estás grávida?” ele quis saber.
            “Sim” disse a minha mãe.
            Após um momento de surpresa, o marido continuou “Sabes quem é o pai?”
            “Não” a minha mãe mentiu.
            “Pudera... devem ter sido tantos os amantes...” resmungou o marido.
            “Pode ser teu” disse a minha mãe e saiu.
            Estupefacto com aquela afirmação, o marido levantou os olhos do jornal: a minha mãe tinha falado a verdade: tecnicamente falando, o filho podia muito bem ser dele. Mas não era muito cedo?...
            Após digerir aquela informação e, depois de muito pensar, o marido foi ter com a minha mãe e comunicou-lhe a sua decisão: ela iria passar umas longas férias à beira-mar, pelo menos até ao final do tempo, pois ele não queria que ninguém soubesse, pelo menos por enquanto, da gravidez. Ela que não se preocupasse, ele trataria de tudo, inclusive da justificação para a ausência prolongada dela.
            E assim a minha mãe se viu grávida, numa casa na praia. E aí teria que ficar até ao parto. Com ela, a fazer-lhe companhia e a valer-lhe a todas as mais pequenas necessidades, apenas uma empregada, a velha e caninamente fiel Rosinda.
            Durante a sua prolongada e forçada ausência, a minha mãe não fazia ideia de como é o seu marido tinha justificado a sua falta e, nesse tempo todo, nem uma única vez ele se dignou a visitá-la.
            Ao fim de alguns meses a minha mãe deu à luz uma menina, mas o marido não foi avisado, a minha mãe fez questão disso, muito para espanto e surpresa da Rosinda.
            Só ao fim de mais alguns meses é que o marido de minha mãe apareceu na casa de praia, para a ver mais a criança, que pelas contas dele, já devia ter nascido.       
            Ao ver a menina, o marido de minha mãe deparou-se com uma criança de meses e não com uma de dias, conforme muito secretamente esperava.
            “Isto não é nenhuma recém-nascida” ele disse, virando-se para a minha mãe.
            Ela nada disse.       
            “Não é minha filha” ele continuou, dirigindo-se acusadoramente para a minha mãe.
            Ela continuou sem nada dizer.
            Houve um longo e tenso momento de silêncio, onde cada um fixava o outro no olhar.
            “Preciso de pensar” o marido finalmente disse, derrubando uma cadeira enquanto saía e batendo violentamente com a porta.
            A minha mãe, sempre silenciosa, apenas se sentou, muito composta, com as costas muito direitas.
            Já era noite quase cerrada quando o marido voltou e, sem olhar para a minha mãe, comunicou-lhe a sua decisão: ela poderia ficar com a filha, mas nunca ninguém saberia da sua existência. A menina cresceria num quarto, numa qualquer dependência da casa deles à escolha de minha mãe e nunca teria qualquer contacto com o chamado mundo exterior. Nem com o interior, pois o acesso ao quarto da criança estaria para sempre vedado a nenhuma outra pessoa que não a minha mãe. Quanto a ele, nunca mais queria olhar para a cara da menina. Aliás, para ele, aquele assunto morria ali: nunca tinha acontecido.
            De volta a casa e, após a minha mãe ter escolhido um quarto que lhe pareceu minimamente agradável e fornecê-lo com o indispensável, colocou a filha no berço.
            E como a criança não podia crescer sem nome, chamou-lhe Alice.
            Eu.
            Depois de ler tudo aquilo e ter, finalmente, percebido a razão da minha reclusão, pela primeira vez abri a porta do meu quarto.
            Á minha frente estendia-se um corredor, ao fundo do qual havia umas escadas.
            Essas escadas, primeiro estreitas, depois largas, iam dar à sala, onde estava a minha mãe.
            Ela pareceu surpresa por me ver, apesar de tudo.
            “Porquê?” perguntei outra vez.
            “Porquê o quê?” a voz dela estava fria.
            “Porque é que aceitou a situação, porque é que nunca lutou por mim?”
            “Não sei” e encolheu os ombros.
            Surpreendida pela displicência com que a minha mãe disse aquelas palavras, fiquei momentaneamente muda.
            “E o seu marido, onde está?” finalmente consegui perguntar.
            “Morto”
            “Morto?...” o marido estava morto! “Há quanto tempo?”
            “Há já alguns anos”
            Anos?!... ANOS?!... “E não podia então ter-me libertado?”
            “Poder, podia”
            “E porque não o fez?”
            “Não sei”
            “Pare de dizer que não sabe” gritei, com a raiva mal contida “Mesmo certo não sabe dizer outra coisa?”
            “Não sei” e ela olhou para mim, posso jurar que com um olhar de troça.
            Suspirei.
            “E o resto da minha família, pai, avós paternos e maternos...?” quis saber.
            “Os teus avós maternos já morreram há muito tempo, quanto ao resto, não faço ideia”
            “E não tem nenhuma fotografia do meu pai?”
            “Não”
            “Como é que ele era?”
            “Como é que ele era?” a minha mãe repetiu.
            “Sim” eu disse “Era bonito, era feio, era alto, era baixo... Diga-me”
            “Queres saber como era o teu pai?”
            “Sim”
            Sem mais, deu-me um pequeno espelho que estava numa mesa ao lado dela “Vê”
            Eu vi.
            “Esse era o teu pai”
            Após um momento de silêncio, continuei “Eu só gostava de tentar perceber as suas razões. As do seu marido até entendo, apesar de não concordar, em nada, com elas – um disparate pegado, foi o que foi... Uma enormíssima, gigantesca dor de cotovelo... Mas as suas... Afinal, eu fui fruto do grande amor que houve entre si e o meu pai...”
            Fui surpreendida por uma gargalhada extremamente desagradável.
            “Grande amor?!...” a minha mãe começou “Não sejas ridícula. Tu fostes apenas um acidente de percurso”
            Fiquei estupefacta com aquela afirmação da minha mãe.
            Ao ver a minha surpresa, a minha mãe continuou a rir, mais e mais.
            No meio daquilo tudo, ainda tive forças para perguntar à minha mãe “Como é que se chamava o meu pai?”
            E entre as gargalhadas, mais e mais sonoras, a revelação veio “Lourenço”
            Fugi.
            Fugi daquela casa, decidida a nunca mais voltar.
            Não voltei. Até hoje, nunca mais lá pus os pés. E não voltei a ver a minha mãe.
            Agora, calcorreio o mundo, à procura do meu lugar, em busca de alguém que me ame.
            Mas não tenho sido bem sucedida.
           
            Mesmo assim, amo.
            Podia não amar, apenas gostar.
            Mas não.
            Não sei gostar, nunca soube.
            Só amar.
            Sempre.
            Mais e mais.
            Mas sei que vou perder.
            E também sei que vou sofrer.
            Outra vez.



[1] A partir do poema de Alfred Lord Tennyson, In Memorian:27, 1850

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