terça-feira, 27 de novembro de 2012

Gira que gira e torna a girar

(E eis-nos chegados à 7.ª parte do meu projecto, “Sete para sete”.)



“Gira que gira e torna a girar”
(Sábado)


“Uma das pessoas deve saber preencher um cheque. Mesmo que haja muito amor, é sempre necessário pagar as contas.”

Eva, 8 anos

(Jornal “O Ribatejo”, 8 de Agosto 2002, n.º 875, Ano XVII – Magazine-suplemento subordinado ao tema “O casamento”, página 32, “O que as crianças dizem do casamento”)


***


I

            “És bom como o milho!”
            Ao olhar para aquele homem sentado a uma mesa a pouco mais de 10 metros de distância, este foi o primeiro pensamento que assaltou a mente de Laura.
            E suspirou.
            - Desculpa, disseste alguma coisa?
            Perguntou, ou antes, gritou Rafaela, a sua amiga, colega e acompanhante: o barulho era tanto, a música estava tão alta, que ali uma pessoa não podia simplesmente falar para se fazer entender: tinha mesmo que gritar.
            - Não, nada.
            Quase perdidas no meio de tantos corpos abandonados à música, Laura e Rafaela iam distribuindo cumprimentos aqui e acolá àquelas pessoas do costume, às mesmas de sempre, mas de quando em vez, como quem não queria a coisa, Laura sempre ia deitando uma olhadela ao que lhe interessava.
            “É cá um borracho... Que pão... Pão não, uma carcaça, ou melhor, uma padaria inteira!...”
            - Parem tudo! – exclamou, de repente, Rafaela.
- Hã?... O quê?... – quis saber, meio atarantada, Laura.
- Achei.
- Achaste o quê?
- O que procurava.
Laura olhou para Rafaela, e reconheceu aquele brilho intenso no olhar da amiga, o mesmo que um predador apresenta quando encontra a sua presa. Laura quase que podia visualizar a cena: Rafaela muito quietinha à espera do melhor momento para atacar e, quando achasse que o mesmo tinha chegado, o coitado nem ia saber o que o tinha atingido, pois Rafaela era implacável: bonita, muito bonita, elegante, atraente, inteligente, culta, sofisticada. Os homens eram atraídos por ela como mel. Uma boazona. Uma brasa. E a escaldar.
Mas nada disso incomodava Laura. Rafaela era como era, era assim, e não havia nada a fazer. Ou se aceitava, ou se recusava e afastava. Laura aceitava.
Somente duma pequena coisa Laura não gostou: da direcção do olhar de Rafaela. Era a mesma da mesa à qual aquele homem, o tal borracho, estava sentado.
- Aonde? – perguntou Laura, numa voz não muito firme.
- Ali. – indicou Rafaela com o queixo, ao mesmo tempo que puxava Laura – Anda comigo.
Ao verificar que era para a mesma exacta mesa que Rafaela a levava, o coração de Laura caiu aos pés.
“Não é justo, não é justo... Eu vi-o primeiro.”
Os pensamentos de Laura gritavam revoltados, mas do que é que isso lhe valia?... Laura realmente vira-o primeiro, mas falara depois... Melhor, não falara, simplesmente.
- Olá. – Rafaela disse, ao chegarem à mesa.
- Olá. – o desconhecido disse, numa voz rouca, com um sorriso.
“Até a voz é boa.” Laura pensou.
- Estás sozinho? – perguntou Rafaela com desenvoltura.
- Não. – ele disse – Estou com um amigo, que foi ali ao bar buscar umas bebidas.
- Ah sim? – Rafaela exclamou. E continuou – Eu também estou aqui com uma amiga.
- E não se querem sentar?
- Porque não?... A propósito, eu sou a Rafaela e esta é a minha amiga Laura.
- Muito prazer. Eu sou o David e aquele que ali vem com as bebidas é o meu amigo Gil.
Enquanto o dito amigo, o Gil, não chegava, e enquanto a Rafaela e o David entabulavam uma conversa, chamada de circunstância, entusiasticamente, mesmo demasiado no seu entender, Laura entreteu-se a observar, cuidadosamente para não parecer demasiado óbvio, este último, e não podia haver qualquer sombra de dúvida, por mais ínfima que fosse: aquele gajo, o David, era mesmo pobre de bom, um autêntico borracho.
Aquele olhos verdes, aquele cabelo preto, aquele peito cabeludo que se deixava adivinhar por baixo dos botões abertos da camisa impecavelmente branca... Ai, ai, aquilo tirava qualquer uma do sério... Até a ela, Laura, que tinha a fama de ser muito certinha... Bom, tinha a fama porque, de alguma maneira, também tinha o proveito, isso não o podia negar. E se era verdade o que se dizia, que não havia fumo sem fogo, também era certo que debaixo daquela fumarada toda havia uma pequena chama: mas pequenina, muito pequenina.
Realmente o tipo era muito giro, mas ao constatar que David e Rafaela se pareciam estar a entender às mil maravilhas, algo dentro de Laura emudeceu, pois por muito que gostasse da amiga – e Laura gostava, realmente gostava –, ela também gostava muito de David: pelo menos do que estava à mostra.
Também podia entrar em competição com Rafaela pela atenção de David – amigas, amigas, homens à parte –, mas essa foi uma questão logo descartada por Laura, pois no fundo, no fundo, ela sabia que não iria ter qualquer hipótese. Primeiro, qual seria o homem que preferia uns vulgaríssimos olhos castanhos e uns cabelos da mesma cor cortados muito curtos, aos longos, brilhantes e luxuriantes cabelos louros da amiga, assim como aos seus olhos negros encimados por dois arcos, algo rebeldes, igualmente negros?... Segundo, porque não era do seu feitio.
- Já cá estou – alguém falou, um rapaz sardento com cabelo cor de cenoura – e trouxe as nossas bebidas. Um Pisang Ambon para ti, e uma cerveja para mim.
- Gil – David disse, enquanto agarrava no seu copo alto cheio de líquido verde – temos companhia. Apresento-te a Rafaela e a Laura.
“Bem, pelo menos lembra-se do meu nome. Já não é mau de todo...”, pensou Laura.
- Olá – disse o rapaz, o Gil, numa voz algo grave – como estão?
- Oi – exclamou Rafaela, enquanto Laura se limitou a sorrir.
            - Ouve lá – sussurrou David, ao mesmo tempo que se inclinava na direcção da Rafaela – por algum acaso o gato comeu a língua da tua amiga?
            - Porque é que dizes isso?
            - Ainda não disse uma única palavra...
            - Pois não – Laura ouviu-se dizer – mas para isso tenho duas boas razões.
            - E são elas...?... – David quis saber.
            - Primeiro, não tenho nada para dizer. Segundo, tu ao menos já te dignas-te a dirigir-me a palavra?
            Foi a vez de Gil sorrir, enquanto as faces morenas de David adquiriram um muito leve tom rosado.
            - Touché – ele, David, limitou-se a exclamar.
            - Laura... – exclamou entredentes Rafaela, ao mesmo tempo que lhe dava uma cotovelada.
            - Ai... – queixou-se Laura – O que foi?...
            - Nada, nada – apressou-se a dizer Rafaela entre sorrisos, mas com um olhar dirigido a Laura que não deixava dúvidas, “Ouve lá, se é para dizeres parvoeiras, mais vale ficares calada.”
            - E o que é que vocês fazem, profissionalmente falando, é claro? – perguntou então Laura.
            - Eu trabalho numa empresa de informática como programador de software, enquanto que aqui o amigo Gil – e David deu-lhe uma palmada no ombro esquerdo – é professor de História no ensino secundário.
            - Ah sim?... – exclamou Laura – E aonde é que dás aulas?
            - Na Escola Secundária Ginestal Machado, em Santarém – explicou Gil.
            - Santarém?!... E vais e vens todos os dias, ou ficas lá e só vens ao fim de semana? – perguntou Rafaela.
            - Vou e venho todos os dias.
            - Essa agora – a surpresa de Rafaela não parava de aumentar – como?
            - De comboio.
            - Bem, só te digo isto: deves gostar muito do que fazes, para ires de comboio todos os dias para Santarém e vires... Não deve ser nenhuma pêra doce...
            - Rafaela – chamou Laura – estamos a falar de Santarém, capital do Ribatejo, a menos de 70 km de distância... Não estamos a falar propriamente do fim do mundo, ou além...
            - Não, deixa estar – Gil riu-se – a Rafaela tem razão: eu realmente gosto muito do que faço. – e dirigindo-se novamente a Laura – E tu, conheces Santarém?
            - Não, nunca lá estive. Só sei que é lá que se realiza a Feira Nacional da Agricultura, o Festival Nacional de Gastronomia e a Lusoflora.
            - O que já é mais que muito boa gente... – disse Gil – Mas olha que devias. Santarém é uma cidade muito bonita, cheia de interesse.
            - Acredito que sim.
            - E tu, Rafaela, conheces Santarém? – perguntou Gil, mas para sua grande surpresa, Laura começou a rir à gargalhada.
            - A Rafaela – começou – conhecer Santarém?... Se lhe falasses de Madrid, Barcelona, Londres, Paris, Nova Iorque, ainda vá que não vá, agora Santarém...
            - Chega de falar de nós – interrompeu David, algo abruptamente – E as meninas, o que é que fazem profissionalmente?
            Laura detestou aquela palavra, “meninas”.
            - Trabalhamos ambas numa agência de publicidade – apressou-se a responder Rafaela – mas o sonho aqui da Laurinha é virar escritora.
            - Rafaela...
            - O que foi, não é verdade?...
            - É, é verdade...
            - Aliás, digo-vos mais: aqui a autora já está a trabalhar no que vai ser o seu primeiro livro... Mas infelizmente não me deixa ler o seu trabalho...
            - Sim? – interessou-se Gil – E qual é o tema?
            - Não há.
            - Como, não há?
            - Não há. – e Laura explicou melhor – É, ou melhor, pretende ser, um livro de contos, com vários temas.
            - Contos?... – Gil ficou surpreendido.
            - Sim, contos. – Laura confirmou e, ao verificar a expressão reinante nos rostos dos três que a acompanhavam, abespinhou-se – Oiçam lá, por algum acaso vocês pertencem aquela laia de gentinha que teima em considerar o conto como o parente pobre do romance?
            - Eh lá, vai com calma – e Gil levantou ambas as mãos – que aqui ninguém pensa assim, pois não? – e olhou para David e Rafaela, que menearam a cabeça negativamente.
            - Desculpem lá. – disse Laura – é que me põem doente todos aqueles que gostam, parece que têm prazer, de considerar o conto como um género literário menor. Fico possessa!
            - Estou a ver que sim – e Gil riu-se, provocando um sorriso envergonhado em Laura.
            - Bom, meninos – começou Rafaela – a conversa está deliciosa, mas vou ter que me ausentar por uns minutinhos.
            - Aonde é que vais? – quis saber David.
            - Coisas de mulher – e Rafaela sorriu misteriosamente, deslizando provocadoramente as suas formas voluptuosas sublinhadas pelo coleante vestido lamé dourado, ao ritmo da música que no momento se estava a fazer ouvir.
            Ao observar Rafaela, Laura não pôde de se deixar sentir intimidada pela sua pequenez e insignificância face à grandiosidade e esplendor da amiga: é que ela somente envergava uma simples t-shirt preta justa que realçava o tronco delgado e o busto pequeno tamanho “B”, umas calças de ganga já não muito novas e, nos pés, uns ténis cinzentos. Que diferença...
            Tal e qual como a verificada entre David e Gil: enquanto o primeiro envergava uma camisa branca de manga comprida com dobras até ao cotovelo, calças azul marinho de pregas, e sapatos e cinto, ambos de pele, pretos, o segundo limitava-se a usar uma simples e básica t-shirt branca, uns jeans já muito gastos pelo uso frequente, um cinto azul escuro, e umas sapatilhas brancas com listras azuis.
            - Laura – David chamou.
            - Sim?
            - Acreditas em amor à primeira vista?
            - Essa agora, porquê?
            - Acreditas ou não acreditas?
            - Bom, se me perguntas assim, de chofre, tenho que te dizer que a minha resposta é não.
            - Não?!...
            - Sim, quer dizer, não. Não acredito em amor à primeira vista.
            - E porque não?
            - Porque não, não acredito em amor à primeira vista.
            - Não acreditas?
            - Não, não acredito, já disse.
            - E em que é que acreditas, se é que acreditas em alguma coisa, pode-se saber?
            - Então não pode... Acredito em atracção à primeira vista, paixão à primeira vista, mas não acredito em amor à primeira vista.
            - Também está bem... – disse finalmente David, após um largo momento de silêncio – Quer isso então dizer que tu não vais acreditar em mim quando eu te disser que estou apaixonado pela tua amiga Rafaela?
            - Acredito – disse Laura, após fixar David nos olhos longamente – acredito que possas sentir paixão pela Rafaela. Mas não acredito que possas estar apaixonado...
            - Então, e não é tudo a mesma coisa?... – David quis saber.
            - Não.
- Não?!... Como assim, não?
- Muito simplesmente, não. – Laura disse, calmamente.
- Desculpa lá, mas tens que me explicar isso melhor – David pediu.
- É muito simples, na verdade. – Laura começou – Paixão, para mim, é um sentimento puramente carnal, é uma atracção física entre dois corpos, é uma química instantânea que faz faísca, enquanto que o estar apaixonado envolve muito mais que uma simples paixão. Envolve também o amor...
            - Amor?...
            - Sim, amor... Mas esse é um sentimento que vai mais fundo, para além da alma... É algo que só aparece com o tempo, com a convivência continuada...
            - Achas mesmo que é assim? – perguntou David.
            - Gosto de pensar que sim. – e Laura continuou – Sabes, quando eu era pequena li algo num livro que nunca esqueci...
            - O quê? – David quis saber.
            - Que primeiro vinha a simpatia, depois a amizade, e finalmente o amor. – Laura respondeu com o olhar perdido sabe-se lá onde.
            - E o que é para ti o amor? – David ainda perguntou.
            - O amor?... Para mim?...
            - Sim, claro. Se tens tantas opiniões sobre o amor, com certeza que também deves ter uma opinião formada sobre o próprio conceito do amor.
            - Opinião?... – exclamou Laura – O amor não é para ser opinado, é para ser sentido. 
            - Já cá estou! – ouviu-se a voz de Rafaela chilrear, enquanto tomava o seu lugar – Do que é que falavam? – quis saber.
            - Aqui a Laura e o David discutiam sobre o amor – explicou Gil, que se tinha mantido calado e à parte.
            - O amor?... – repetiu Rafaela, surpreendida – Mas que raio de tema...
            - Olha que até é um tema muito interessante – disse David – Digo-te mesmo mais: aqui a Laura tem mesmo umas ideias sobre o assunto muito... muito...
            - Muito quê? – perguntou Laura de forma algo desafiadora.
            “Sempre quero ver o que vai sair daqui”, ela pensou.
            - Muito... – David começou – ... esclarecidas – ele terminou, olhando para Laura de uma tal maneira, que a fez arrepiar.
            - Pois, está bem – aquiesceu Rafaela – mas agora o que me está a apetecer mesmo é dançar. Quem me acompanha?
            - Eu vou contigo – David preparou-se para a acompanhar.
            Um silêncio de fundo musical começou a instalar-se entre Laura e Gil, até que ele falou.
            - Queres dançar?
            - Não, obrigado.
            Novamente o silêncio cheio de som.
            - Então – ele falou, novamente – o que é que dizes deste tempo?... Quente, não?...
            “Hã?” surpreendeu-se Laura. Mas que raio de conversa era aquela? E a propósito de quê?... O tempo?!... Por amor de Deus... Até àquele momento Gil tinha-lhe parecido uma pessoa interessante, mas agora...
            - Oh Gil – começou Laura – podes-me explicar qual o objectivo dessa conversa?... O tempo?!... Eh pá, tem lá dó...
            Debaixo das sardas, Gil enrubesceu.
            - Desculpa, eu sei que parece estúpido, mas cá para mim, qualquer coisa é preferível a estarmos para aqui calados, feito duas baratas tontas.
            - Tenho muita pena, mas não sou da mesma opinião, pois se há coisa que eu aprecio, é ficar muito quietinha, muito caladinha, a ouvir o silêncio.
            - Ouvir o silêncio?... Aqui?... Neste momento?...
            Realmente, era uma pura tolice estar a falar em ouvir e sentir o silêncio ali, naquele lugar, rodeados de sonoridades cuja vaga semelhança com música seria pura coincidência. 
             - Sim – disse Laura – aí já sou capaz de concordar contigo.
            Entreolharam-se, riram-se, e Laura pode então constatar em como Gil era possuidor de uns expressivos olhos cinzentos.
            Ele foi o primeiro a afastar o olhar, desviando-o para a pista de dança.
            - Parece que os nossos amigos estão a dar-se muito bem.
            Laura desviou também o seu olhar da direcção da pista de dança. E sim, era verdade. David e Rafaela pareciam entender-se às mil maravilhas.
            E ficou algo triste. Por ela. Mas contente, apesar de tudo. Pela amiga.
            - É... – Laura ouviu-se dizer, não sem sentir algo que poderia caracterizar como consternação.
            - Parece que isso não é lá muito do teu agrado... – Gil sorveu mais um golo, o último, da sua cerveja, depois de observar atentamente Laura, cujo olhar continuava teimosamente pousado na pista de dança, onde as figuras de Rafaela e David evoluíam de forma quase que graciosa.
            - Hã?... O quê?... – Laura esperou um momento até finalmente se aperceber bem do alcance da interpretação-sugestão-ela-sabia-lá-mais-o-quê de Gil – Não sejas pateta...
            - Pateta, eu?... – Gil exclamou mais para ele do que para Laura ouvir – Pois, pois... Engana-me, que eu até gosto...
            - O que é que disseste?...
            - Eu?!... – Gil fingiu-se admirado – Eu não disse nada.
            - Ah... É que pareceu-me ouvir-te dizer alguma coisa.
            - Não, foi impressão tua.
            Depois desta troca de palavras, Gil e Laura ficaram silenciosos, a verem Rafaela e David a divertirem-se. E mesmo a contragosto, Laura teve que admitir que eles faziam um belo par – parecia que tinham tudo a ver um com o outro... Mais, com toda a certeza, do que ela teria algum dia a ver com ele, com David.
            Quanto tempo é que Laura ficou a olhar para a pista de dança? Ela não sabia. Só soube que Rafaela e David já ali estavam, ao pé dela, com um aspecto suado e divertido.
            - Parece que gostaram... – disse Gil.
            - Ó pá, nem queiras saber – começou David – foi óptimo!
            - Ainda bem que gostaram. – Laura também disse.
            - Gostámos, não, adorámos! – exclamou Rafaela.
            - E agora – quis saber David – o que é que vamos fazer?
            - Vocês não sei – respondeu Laura – mas eu vou para casa, pois já oiço a minha caminha a chamar por mim.
            - Já?! – admirou-se David – Mas ainda a noite é uma criança...
            - Pois, pois, está tudo muito bem, mas amanhã quem tem que se levantar cedo sou eu e, para isso, tenho que dormir. – tentou explicar Laura.
            - Então, e tu – David virou-se para Rafaela – também tens que ir fazer ó-ó, tens?
            - Eu?!... – exclamou Rafaela – Estás mas é doido... Se for preciso, faz-se uma directa sem problema algum, com uma perna às costas.
            - Assim é que é falar... Estou a ver que és cá das minhas... – e David virou-se para Gil – Então e tu, ficas?
            - Não posso. Mas divirtam-se.
            - É essa a nossa intenção. – riu-se Rafaela.
            - Até cair-mos para o lado. – acrescentou David.
            Depois de fazerem as despedidas, Laura e Gil saíram juntos da discoteca.
            - Queres boleia? – Gil perguntou.
            - Quem, eu? – exclamou Laura.
            - Vês aqui mais alguém? – e Gil riu-se.
            Laura também se riu, meio envergonhada.
            - Não, deixa estar, não é preciso.
            - De certeza?
            - Sim. Eu trouxe carro, não te preocupes.
            - Sendo assim... Adeus.
            - Adeus.


II

            TRRIM!... TRRIM!... TRRIM!... TRRIM!... TRRIM!... TR...
            Maldito despertador, Laura pensou depois de abruptamente o ter desligado. Era em momentos como aquele que ela lamentava não ter uma pressão-de-ar.
            A custo e com muito pouca vontade, Laura lá abandonou o conforto da sua cama.
            Mas foi preciso a brisa fria da manhã acariciar-lhe algo bruscamente o rosto ainda ensonado, para finalmente acordar.
            - Bom dia, Laura. – cantarolou Rafaela, dançando à volta dela, mal pôs o pé na agência.
            - B’ dia. – resmungou Laura, já imaginando o porquê da muito boa disposição da amiga e colega.
            - Cruzes, mulher – exclamou Rafaela – mas que raio de maneira é essa de cumprimentar o novo dia?
            - É uma maneira igual às outras. – disse Laura.
            - Xiii... – começou Rafaela – Já estou a ver tudo...
            - Hã?... Tudo?... Mas tudo, o quê?...
            - Estou a ver que hoje levantaste-te do lado errado da cama, isso é que eu estou a ver...
            - O que é que estás para aí a dizer?... Tu estás mas é maluca!...
            - É isso, é...
            - Oh, pá... Hoje, estás mesmo parvinha, tu...
            - Não te preocupes, que eu também não.
            Enquanto Laura se preparava para estacionar no seu local de trabalho, perguntou a Rafaela:
            - Bem, já agora estou curiosa. A que é que se deve esse ataque de boa disposição logo pela manhã, pode-se saber?
            - A nada, a nada...
            - A nada, não. A alguma coisa há-de ser.
            - Oh, não é nada de especial... – Rafaela disse distraidamente, enquanto fingia estar a arrumar qualquer coisa na secretária de Laura. 
            - Nã, nã, nã... A mim não me enganas tu... Vá lá, desembucha... O que é que foi, o que é que se passou?
            - Nada de mais... – começou Rafaela – Aconteceu apenas que eu e o David saímos da discoteca às tantas da matina e...
            - E... – encorajou Laura.
            - Ele ofereceu-me boleia.
            - E o que é que isso tem de tão especial?
            - Nada. Mas antes de levar-me a casa, ele convidou-me para ir à casa dele.
            - E tu foste?
            - Claro, seria muito má educação da minha parte declinar um convite daqueles... Ainda por cima feito por quem foi e da maneira que foi...
            - Tu não tens qualquer emenda... – Laura abanou a cabeça – Nunca ouviste dizer que quem vê caras não vê corações?...
            - Lá estás tu com as tuas lições de moral e coisas que o valham... – aborreceu-se Rafaela – E tu, nunca ouvis-te dizer que esta vida são dois dias e que um já passou?
            - Está bem, está bem... Desculpa... Já cá não está quem falou...
            - Acho bem.
            - Bom, mas conta lá... O que é que aconteceu depois?
            - Depois... Bem, depois fomos à casa dele... Ai, Laura, só queria que tu visses... A casa dele tem cá uma pinta...
            - Rafaela – interrompeu Laura – olha bem para a minha cara. Achas que eu estou interessada na casa do David?
            (Até estava – e muito. Mas não ia confessar isso à amiga.)
            - Bolas, Laura, se é para ficares assim, não te conto mais nada.
            - Não, não... Conta.
            Rafaela olhou desconfiada para Laura.
            - Vá lá, conta. – quase que suplicou Laura – O que é que aconteceu depois?
            Após um momento de hesitação, Rafaela continuou.
            - Bom, ele perguntou-me se queria beber alguma coisa.
            - Sim?...
            - E eu disse que bebia o mesmo que ele bebesse.
            - E depois?
            - E depois, conversa puxa conversa, isto puxa aquilo, etecetra e tal... Sabes como é... Quando demos por nós já estava-mos no quarto dele.
            - Oh Rafaela...
            - Oh Rafaela, o quê?... Se queres que te diga, não estou nada arrependida. Foi fantástico.
            - Mas ir para a cama logo no 1º encontro?...
            - E daí?...
            - O David vai com toda a certeza ficar com uma opinião linda acerca de ti, ai vai, vai...
            - Isso é o que tu dizes...
            - Infelizmente, não sou só eu que o digo.
            Rafaela olhou para a amiga atentamente.
            - Laura, sabes o que te digo?
            - O quê?
            - Deixa de ser tão puritana.
            - O quê?! – escandalizou-se Laura – Puritana, eu?!...
            - Não, o vizinho do lado... É claro que és tu!
            - Ouve lá, mas tu estás parva ou fazes-te?... Desde quando é que eu sou puritana, pode-se saber?
            - Então não pode... Desde sempre.
            - Eu nem quero acreditar nos meus ouvidos...
            - Ai, acredita, acredita...
            - Mas já agora diz-me, que eu quero saber. – recomeçou Laura, após um silêncio mais prolongado – Porque é que me achas puritana?
            - Que outro nome se pode dar a toda essa conversa da tanga que estás para aí a dar-me?
            - Conversa?... Que conversa?...
            - Essa, de eu não dever ter ido à casa dele e de ter dormido com ele.
            - E não devias.
            - Mas não é só...
            - Ai, não?...
            - Não... Desde que te conheço que sempre foste assim.
            - Assim, como?...
            - Assim, sempre muito bem comportadinha, sempre preocupada com o que os outros pensam e dizem. Muito convencional.
            - Mas que barbaridades estás para aí a dizer?
            - Não são barbaridades, é a mais pura verdade. Mas não te preocupes, és só mais uma vítima.
            - Vítima, eu?
            - Sim, vítima dessa grande epidemia que grassa no meio de nós.
            - Epidemia?... Mas o que é que tu estás para aí a dizer?... Oh Rafaela, explica-te, que eu não estou a perceber patavina...
            - Então, é simples... Foste atacada pelo vírus da “Socialitis aguda”.
            - Fui atacada por quem?...
            - Eh pá, ó Laura, não te assustes. – riu-se Rafaela – “Socialitis aguda” foi apenas um nome que eu inventei para quem, como tu, está sempre preocupado com o que os outros vão dizer.
            - Até parece...
            - Não parece, é. Podes crer que é.
            Laura encolheu os ombros.
            - Bom, passas-te a noite com o David... Mas ao menos usaste protecção?
            - Oh Laura, sinceramente... Mas que raio de pergunta...
            - Usaste?
            - Mas é claro que sim, não é... O que os olhos não vêem, o coração não sente... E então, hoje em dia...
            Após um breve silêncio, Laura continuou:
            - Sabes, Rafaela, só tenho pena de uma coisa...
            - O quê?
            - Com certeza que agora ele nunca mais vai querer saber de nós, quer dizer, de ti.
            - Porque é que dizes isso?
            - Então, eles quase nunca telefonam depois de conseguirem o que querem.
            - Essa agora, porque é que dizes isso?...
            - Então, é verdade... É o que vem nalgumas revistas e nalguns filmes.
            - Não digas disparates e deixa lá estarem as revistas e os filmes em paz...
            - Então, mas se é o que lá vem...
            - Está bem, isso é o que lá vem, mas sabes o que eu te digo?
            - O quê?
            - Duvido-ó-dó.
            - O que é que queres dizer com isso?
            - Sabes Laura – começou Rafaela, pensativamente, após alguns momentos – é espantoso...
            - O que é que é espantoso?
            - Tu.
            - Eu?! – admirou-se Laura.
            - Sim, tu. – confirmou Rafaela. E continuou – É espantoso como tu tão depressa és uma mulher esclarecida, informada, independente, sei lá, moderna, como és tão ingénua que até parece mentira. Acreditas em tudo.
            - Pois, pois... Ainda não respondeste à minha pergunta.
            - Desculpa, qual era a pergunta?
            - O que é que tu queres dizer com isso do “duvido-ó-dó”.
            - Ah, isso... Então, o que eu quero dizer é que a pessoa que tu dizes muito provavelmente não mais me querer ver, quer-me ver no Sábado, ou seja, amanhã.
            - Como é que é?
            - O David convidou-me para jantar amanhã.
            Laura não sabia se ficava ou não feliz com a notícia. A balança tinha dois pratos e, de momento, Laura não sabia qual o que tinha mais peso: se o que estava contente pela amiga, se o que estava descontente por ela.
            - Oh, ainda há mais uma coisa... Tu também estás convidada.
            - Eu?!... Ouve lá, mas tu mesmo certo não achas que já estás muito crescidinha para precisares de “pau-de-cabeleira”?
            - Não é nada disso... O Gil também vai.
            - O Gil?
            - Sim, o Gil. Tu sabes, o amigo dele.
            - Eu sei quem é o Gil.
            - Então... Vai ser assim como que uma espécie de “double date”, como dizem os americanos.
            Um “double date”, uma saída a quatro ?…
            - O David ficou de me telefonar hoje à noite, para combinarmos tudo para amanhã. Eu depois digo-te como é. – E com estas palavras Rafaela foi à vida dela, deixando Laura entregue aos seus pensamentos.
            Jantar, amanhã?... Com o David?... Óptimo!... Mas também com a Rafaela... Não tão óptimo... Tudo menos óptimo... Péssimo...
            Não, não, não!!!... Aonde é que ela, Laura, estava com a cabeça?... A Rafaela era amiga dela, uma boa amiga, e ela só tinha que ficar contente. Pela amiga.
            Aliás, Laura sabia, aquela atracção que ela sentia pelo David ia passar, tinha que passar. E depois, o Gil também lá ia estar. Até podia muito bem vir a ser um jantar divertido.
            Aquele dia passou rapidamente, quase sem Laura dar por isso. O mesmo se passou no dia seguinte, dia do jantar. Rafaela tinha telefonado perto da hora de almoço a explicar-lhe como é que iria ser – iriam todos ter ao restaurante – e Laura aproveitou todos os minutos disponíveis para tratar de si. Fez tudo como devia ser, como dizia nas revistas que se devia fazer. E agora, frente ao guarda-fatos aberto de par em par, Laura suspirava: o que é que havia de vestir?... Definitivamente, calças: isso era ponto assente. De que cor? Pretas, com certeza. Mas quais? Aquelas de cetim, levemente brilhantes, estavam bem para um jantar. Agora, a blusa. Lisa ou estampada? Estampada, para dar um pouco mais de cor. Quer dizer, não que Laura tivesse muitas blusas estampadas, não tinha (sempre fora mais adepta da cor única: uma peça de roupa, uma cor), mas sempre tinha algumas. Mas qual?... Sim, podia muito bem ser, aquela às florinhas, tipo “cache-coeur”: simples e bonita, tal e qual como devia ser. Calçou ainda  umas sandálias pretas de salto médio e colocou um cinto mais para o fino do que para o largo, também preto. Pegou na sua mala preta a tiracolo (uma que raramente usava) e olhou-se no espelho, com ar crítico: não estava mal.
            Foi para o restaurante. Será que iria ser a primeira a chegar?... Laura esperava sinceramente que não. Detestava ser a primeira a chegar. Mas também era incapaz de se atrasar propositadamente: a pontualidade estava-lhe nos genes. Bom, se ainda não tivesse chegado ninguém, Laura só tinha uma certeza: iria andar às voltas para fazer tempo, até mais alguém chegar.
            Mas tal não foi necessário. Gil já lá estava.
            - Olá – Laura disse, enquanto se sentava – Já cá estás há muito tempo?
            - Não, nem por isso.
            - Então, a Rafaela e o David?
            - Perguntas-me a mim?!... Sei lá... Aliás, eu até estava convencido que a Rafaela vinha contigo...
            - Não. Ela telefonou-me a dizer que cada um vinha ter aqui, ao restaurante.
            Gil sorriu.
            - Então temo que os nossos amigos tenham desaparecidos juntos, por assim dizer, ou coisa parecida.
            O rosto de Laura ensombrou-se.
            - Que foi, Laura? – Gil perguntou – Parece que a ideia te incomoda...
            - Qual ideia?... – Laura ainda tentou disfarçar, lutando com o fogo que lhe assaltava as faces do rosto.
            - Nenhuma. – Gil respondeu, apercebendo-se dos sentimentos de Laura. Fez uma pausa e continuou – Queres esperar por eles?
            - Esperamos um quarto de hora. Se eles não aparecerem, jantamos nós.           
            Esperaram. Mas nem sinal de David e Rafaela.
            Resolveram jantar. E por mais incrível que pareça, Laura quase que esqueceu daqueles dois. Gil realmente era uma pessoa muito divertida, com muitas e muitas histórias engraçadas dos seus alunos. Como aquela daquele aluno que estava firmemente convencido que o Cabo da Boa Esperança tinha sido dobrado no reinado de D. Afonso Henriques.
            - O quê?!... – Laura exclamou, rindo – Posso não ser nenhuma barra a História, mas sei que não foi no reinado de D. Afonso Henriques... Foi em qual, no de D. Manuel I?...
            - Não erraste por muito... Foi no reinado antes, de D. João II.
            - O “Príncipe Perfeito”.
            - Muito bem!... Para quem afirma não ser barra a História, até sabes umas coisas...
            - Ouve lá, posso não ser barra, mas também não sou burra.
            - De acordo. – Gil riu – E provavelmente também deves saber qual o rei que, segundo a lenda, há-de voltar numa manhã de nevoeiro...
            - Essa é de caras!... É o D. Sebastião, o “Desejado”.
            - É de caras para ti, porque tive um aluno que disse que era o Rei Artur...
            - Artur, qual Artur?... O inglês?... O da Távola Redonda?...
            - Nem mais.
            - Não acredito!
            - Podes acreditar.
            - Minha Nossa Senhora...
            - Bem o podes dizer... Mas sabes, eu não os culpo a eles, os jovens, pelo facto de não saberem... A culpa não é deles, ou melhor dizendo, não é só deles...
            - Explica.
            - Então, como é que tu te sentirias se estivesses a estudar e todos os anos alterassem o programa curricular?... Não te sentirias também perdida, sem rumo, mesmo frustrada?
            - Sim, provavelmente tens razão...
            - É que uma coisa por demais... Quase que posso dizer que os excelentíssimos senhores lá do Ministério, de cada vez que vão à casa de banho, têm uma ideia...
            Laura riu-se.
            - Também, não exageres...
            Foi a vez de Gil se rir.
            - Tens razão... Mas vamos mudar de assunto. E o teu livro de contos, como é que vai?
            - Vai devagarinho. Mas vai!
            - E já decidiste como é que se vai chamar?
            - Não, ainda não. Mas já decidi como é que não se vai chamar.
            - Ah, sim?... – Gil riu-se – E então, como é que o livro não se vai chamar?
            - Ó pá, nada daquela história de o nome de uma das histórias, seguida de “e outros contos”. Nada disso.
            - E porque não?
            - Porque assim vai parecer que eu estou a destacar uma das minhas histórias. E eu não quero isso. Para mim, todas as minhas histórias são importantes. Igualmente.
            - Estou a perceber...
            - Tem que ser um título verdadeiramente original, que engloba todas as minhas histórias.
            - Ou que não tenha nada a ver com nenhuma delas...
            - Sim. Ou isso.
            E ambos riram-se com gosto.
            O resto da refeição correu de forma muito agradável. Tão agradável, que foi com um misto de surpresa e pena que Laura viu o jantar chegar ao fim.
            - Sabes uma coisa – Gil começou, enquanto saiam do restaurante – da próxima vez que vir o David e a Rafaela, não posso esquecer de lhes agradecer.
            - Agradecer?... E porquê?...
            - Por não aparecerem.
            - Não estou a perceber.
            - Então, assim pude jantar só contigo. Conhecer-te melhor...
            Ao ouvir aquelas palavras, mais uma vez Laura teve que lutar contra o fogo que teimava em lhe assaltar as faces do rosto.
            Gil apenas se riu com gosto – uma gargalhada fresca, límpida, que contagiava – e piscou-lhe o olho.
            - Queres boleia? – ele perguntou a Laura.
            - Não, não é preciso. Eu apanho um táxi.
            - Isso é que era belo!... Anda, que eu dou-te boleia.
            - Oh Gil, eu agradeço, mas não é preciso.
            - Xiu e anda.
            - Mas Gil...
            - Nem mas nem meio mas, anda.
            - Gil...
            - Laura...
            Ficaram um momento a olharem fixamente nos olhos do outro, até que Laura desviou o olhar primeiro.
            - Pronto, ganhaste, eu vou contigo.
            - Assim é que é falar. Entra aí. 
            Dentro do carro, a caminho da casa de Laura, o silêncio começou a instalar-se. Parecia que toda a conversa, todos os risos, tinham ficado lá fora, no ar da noite.
            - Então – finalmente Gil falou – hoje resolveste dar um descanso ao teu carro?
            - Foi. Sabes como é, a gasolina está tão cara...
            - Pois é... Mas olha que a andar assim de táxi...
            - Qual é o mal?... Estava a contar com a boleia da Rafaela... E também, era só uma corrida... Um dia não são dias.
            - Só uma corrida?... E como é que foste para o restaurante?
            - A pé.
            - A pé?! – admirou-se Gil.
            - Sim, a pé. O que é que tem de mais?... Gosto de andar a pé...
            - Está bem, pronto. Gostas de andar a pé.
            Caíram novamente em silêncio.
            - A minha casa é já ali. – finalmente Laura disse.
            - Ali?... Naquele prédio já ali à frente?
            - Esse mesmo.
            Gil parou o carro.
            - Cá estamos. – disse.
            - Lar, doce lar... – brincou Laura – Queres subir para tomar qualquer coisa?... Um café, talvez?... – mal acabou de dizer estas palavras, Laura teve uma tremenda vontade de morder a sua língua. Sim senhora, bonito!... Ela já estava como a outra: faz o que eu digo, não faças o que eu faço. Então, ela tinha pregado um tremendo de um sermão a Rafaela por ela ter ido à casa de David logo na primeira noite em que se tinham conhecido, e agora ali estava ela a fazer exactamente o mesmo – só que ao contrário, o que era pior: Laura é que estava a convidar Gil.
            - Não sei se deva... Amanhã tenho que acordar cedo... – começou a dizer Gil.
            - Mas amanhã é Domingo. – ouviu-se Laura dizer. Caraças! Porque é que ela tinha dito aquilo?... Ela bem que podia ter aproveitado a tentativa de desculpa de Gil para dar o dito por não dito. Ao invés... Caraças!
            Após um momento de silêncio, Gil finalmente falou.
            - Não, é melhor não.
            - Se é assim... – Laura disse, com a sua voz a soar-lhe aos ouvidos algo decepcionada. Mas ela não estava decepcionada, não estava. Pelo contrário, até estava aliviada.
            - Até.
            - Até.


III

            Na manhã do dia seguinte, Domingo, Laura foi acordada por um insistente tocar de campainha.
            - Já lá vai, já lá vai... – disse Laura com uma voz muito ensonada, enquanto se dirigia para o intercomunicador. – Quem é? – perguntou, quase a dormir em pé.
            - Sou eu, a Rafaela. Deixa-me subir.
            Rafaela?!... O que é que ela poderia querer àquela da manhã?... Bom, fosse o que fosse, Laura sempre lhe queria dizer umas coisinhas, por causa de tanto Rafaela como David não terem aparecido no jantar da véspera.
            - Sobe.
            Pouco depois Rafaela estava à sua porta. Laura só deixou tocar uma vez: abriu logo a porta, apressadamente.
            - Bom dia! – cumprimentou Laura de forma irónica – Bons olhos a vejam...
            - Bom dia, só se for para ti. – respondeu Rafaela.
            Algo na voz da amiga fez Laura esquecer tudo o que lhe queria dizer.
            - Que se passa Rafaela, algum problema?
            - E ela ainda pergunta...
            Laura estava a começar a ficar assustada, perante o desalento e desamparo de Rafaela.
            - Mas o que é que se passa?
            - Ai, Laura... – gemeu Rafaela, enquanto se afundava num sofá.
            - Oh mulher, fala! – exclamou Laura, já a sentir-se invadir pela impaciência.
            Rafaela respirou fundo.
            - É o David.
            - O que é que tem o David? – estranhou Laura – Que eu saiba, vocês ontem à noite estiveram juntos, não estiveram?
            Sem dizer uma única palavra, Rafaela acenou com a cabeça que sim, tinham estado juntos.
            - Então... – começou Laura, logo interrompendo-se – Espera aí, ele fez-te algum mal?
            Rafaela olhou para Laura sem perceber muito bem o que ela estava a dizer.
            - Fazer-me mal?... O David?... É claro que não!!!
            - Ainda bem. – disse Laura, sinceramente aliviada. – Mas então, o que é que se passou?... Foi alguma coisa que ele te disse, foi?...
            Rafaela olhou para Laura.
            - Ouve lá, e se parasses de dar palpites e me deixasses falar, não era melhor?
            - Pronto, pronto, está bem. Fala lá.
            - Vou falar.
            Rafaela respirou fundo, muito fundo, novamente.
            - Então?... – impacientou-se Laura.
            - Tem calma, se faz favor.
            Laura encolheu os ombros.
            - Bom – começou Rafaela – como eu já te disse, é o David...
            - Sim, até aí eu já percebi.
            - Laura...
            - O que foi?
            - Não me interrompas, está bem?
            - Tu mandas...
            - Como eu ia a dizer – recomeçou Rafaela – é o David. Acho... Acho...
            - Achas... – Laura encorajou a amiga.
            - Acho...
            - Achas...
            - Acho que estou a ficar apaixonada! – Rafaela finalmente disse, num só sopro.
            Laura estava abismada perante a revelação da amiga: apaixonada?... Pelo David?... Como é que isso podia ser?... Eles conheciam-se há tão pouco tempo... Rafaela podia lá estar apaixonada... Ela apenas pensava que sim... 
            - Tens a certeza? – Laura ouviu-se perguntar.
            - É claro que eu não tenho a certeza!...
            - Então porquê esse drama?
            - Porque se eu não tenho a certeza, para lá caminho...
            Rafaela apaixonada por David?... Isso é que não estava nos planos de Laura... Bom, a confirmar-se, talvez tal servisse para Laura, definitivamente e de uma vez por todas, tirar David da cabeça.
            - E ele, sente o mesmo por ti?
            - Ele?...
            - Claro, ele, David.
            - Ah, ele... Não sei, não faço a mínima ideia.
            - Nenhuma ideia?...
            - Oh pá, é assim... Às vezes parece que sim, outras vezes parece que não... Ai, Laura, o que é que eu faço?...
            - Perguntas-me a mim?... Eu sei lá, Rafaela... Olha, como dizem nos livros e nos filmes, faz o que o teu coração mandar. É só isto que eu te posso dizer.
            Rafaela abraçou Laura com força.
            - Obrigado.
            - Obrigado?... – Laura estava confusa – Obrigado, porquê?
            - Por me ouvires.
            Laura ficou calada, enquanto acompanhava Rafaela à porta.
            - Eu depois digo-te como é que as coisas correm – disse Rafaela, à laia de despedida.
            - Está bem – respondeu Laura, antes de fechar a porta.
            Sozinha outra vez, Laura tentou pôr alguma ordem nos seus pensamentos: Rafaela apaixonada por David... E provavelmente o contrário também acontecia, porque não?... Tinham tudo a ver um com o outro...
            Os pensamentos de Laura foram subitamente interrompidos pelo telefone.
            A manhã estava a ser concorrida: primeiro a Rafaela, agora o telefone.
            - Estou?...
            - Estou?... Laura?... – o voz do outro lado da linha chamou.
            - Sim, sou eu. Quem fala?
            - É o Gil.
            - Oh, olá Gil, tudo bem?
            - Está tudo bem, obrigado. Ouve lá...
            - Diz.
            - Preciso de falar contigo.
            - Comigo?
            - Sim, contigo. É importante. Aonde é que a gente se pode encontrar?
            Depois de combinado o encontro, Laura desligou o telefone.
            “O que será que o Gil tem de tão importante para me dizer?” ainda pensou Laura, enquanto preparava um duche revigorante.
            Já fora de casa, à medida que se aproximava da esplanada onde se tinham combinado encontrar, a mente de Laura começou outra vez a ser invadida pela mesma questão: o que seria que Gil tinha de tão importante para lhe dizer?
            Em breve, muito breve, essa questão seria respondida, pois Gil lá estava.
            - Olá – Laura cumprimentou Gil com dois beijos na face.
            - Bom dia.
            - Então – começou Laura, enquanto se sentava – o que é que me queres dizer?
            - Eh pá, tem calma – riu-se Gil – primeiro, bebe alguma coisa.
            Depois de beberem cada qual o seu café, Laura voltou a insistir.
            - Vá, diz-me o que tinhas de tão importante para dizer.
            Gil suspirou.
            - Bom, cá vai disto... Trata-se do David.
            - Do David?
            Outra vez o David?...
            - Sim, do David... Estás a ver, ele telefonou-me esta manhã...
            - Sim?...
            - Por causa da tua amiga Rafaela.
            - E daí?
            - Daí que lembras-te daquela conversa que tivemos quando nos conhecemos, aquela acerca do amor?
            - Sim, lembro.
            - Então, também deves estar lembrada de dizeres ao David que não acreditavas quando ele te disse que estava apaixonado pela Rafaela, quando muito acreditavas que ele sentia paixão pela tua amiga?
            - Sim.
            - Bom, quanto ao facto de ele sentir paixão, estavas 100% correcta. Agora, quanto ao estar apaixonado...
            - Que é que tem?
            - Podes começar a acreditar.
            Laura ficou silenciosa por um momento.
            - E porque é que estás a dizer essas coisas a mim? – ela finalmente falou.
            - É que... – Gil parecia algo atrapalhado – Deu para perceber que tu gostastes do David... E eu só te queria avisar antes que sofresses... Por isso é que te estou a contar isto da Rafaela...
            Laura sentiu-se invadir por uma onda de ternura. Pousou a sua mão na dele, por cima da mesa da esplanada.
            - Obrigado por te preocupares comigo, mas não só eu já sabia essa história da Rafaela, como o teu amigo David já me passou.
            - Como é que já sabias da Rafaela? – admirou-se Gil.
            - Ela esteve lá em casa, esta manhã. E posso te dizer isto: os sentimentos do David pela Rafaela...
            - Sim?...
            - São recíprocos.
             Gil ficou um momento em silêncio.
            - E é verdade que o David já te passou? – ele quis saber.   
            - Completamente. – Laura mentiu. Ainda não tinha passado, mas ia passar, ai se ia... Se não fosse a bem, ia a mal... Mas ia passar!!!
            Nas semanas e meses que se seguiram, só muito raramente é que Laura e Rafaela se encontravam para além do serviço, pois Rafaela aproveitava todos os momentos para estar com David: estavam apaixonadíssimos. Em contrapartida, era raro o dia que Laura não estava com Gil: entre eles tinha-se estabelecido uma sólida amizade. Para além disso, Laura praticamente já não pensava em David.
            Um dia, Gil estava na casa de Laura, pois tinham combinado ir ao teatro.
            - Importas-te de esperar só um bocadinho, enquanto eu acabo o que estou a fazer na cozinha?
            - Não, claro que não. Vai lá.
            - É só um bocadinho, eu não me demoro.
            Enquanto Laura acabava o trabalho que estava a fazer, Gil chegou à porta da cozinha.
            - Então, já sabes da novidade?
            - Qual novidade? – perguntou Laura, a sorrir.
            - O David e a Rafaela vão casar.
            O quê?!... Casar?!... Laura sentiu o chão a querer fugir-lhe debaixo dos pés. Muito pálida, agarrou-se às costas de uma cadeira para evitar cair: não queria que Gil a visse naquele estado.
            - Estás a sentir-te bem?
            - Estou, claro que estou. Só estou um pouco surpreendida, é só isso. A Rafaela nunca me disse nada...
            - Eu também só soube há bocado... Parece que só foi decidido ontem... Por isso, se a Rafaela ainda não te disse, vai dizer, com certeza...
            - Sim, és bem capaz de ter razão... – anuiu Laura – Mas agora vai lá para a sala, para eu acabar isto aqui.
            Gil foi sentar-se no sofá, mas continuou a falar.
            - Mas é perfeitamente normal o eles quererem casar...
            - Achas?...
            - Claro!... Se eles estão tão apaixonados... Ou tu não te vais querer casar, quando te apaixonares?
            - Se me apaixonar...
            - Claro que te vais apaixonar... E eu também...
            - É, pode ser que sim... Um dia vai chegar a minha vez e eu vou-me apaixonar perdidamente.
            Silêncio.
            Subitamente, sem que nada o fizesse adivinhar, Gil fez chegar a sua voz até Laura.
            - Não era engraçado se te apaixonasses por mim? – e a sua voz tremeu ligeiramente.
            Ao ouvir aquelas palavras vindas da sala, Laura, na cozinha, parou imediatamente de fazer o que estava a fazer.
            Lentamente aproximou-se de Gil que, ao vê-la, se apressou a levantar-se do sofá.
            Ela olhou bem fundo nos olhos dele, e percebeu. Tudo.
            - Sabes, Gil – Laura começou, pausadamente – acho que já estou.
            E sorriram.

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