quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

As duas irmãs


        Mara Lara.
        Lara Mara.
        Duas irmãs. Gémeas. E que não se podiam ver uma à frente da outra.
        Não que elas se detestassem, odiassem ou, pior ainda, se ignorassem. Não, nada disso. Elas realmente não se podiam ver uma à frente da outra. Literalmente.
        Mara Lara e Lara Mara, para além de serem irmãs gémeas, eram também siamesas. E estavam unidas pelas costas.
        Quando elas nasceram, ninguém se atreveu a colocar, ainda que remotamente, a hipótese de serem separadas. Não. Se elas tinham nascido assim, era porque o bom Deus assim o entendia: elas haviam de aprender a viver assim, pois com toda a certeza aquela característica tinha, obrigatoriamente, que possuir algum propósito: Deus escreve sempre direito por linhas tortas, e os pais não poderiam permitir, de modo algum, que algum qualquer, fosse doutor ou coisa mais importante, endireitasse as linhas do Senhor. De maneira nenhuma.
        E se os pais assim o entenderam, foi assim que o fizeram.
        Mara Lara e Lara Mara cresceram para a vida tal e qual como vieram ao mundo: de costas voltadas.
        Tornaram-se cada uma o oposto da outra, dia e noite, sol e lua, Yling e Ylang. Duas metades distintas de uma só entidade, dois seres a um só viver.
        No entanto, uma não podia viver sem a outra. Não apenas fisicamente, mas para além disso. As duas completavam-se. Perfeitamente, como um círculo fechado.
        E as duas irmãs agradeciam todas as noites, nas suas orações, a Deus por, na Sua infinita sabedoria, ter tido a bondade de iluminar os seus pais para decidirem não as separar.
        Mara Lara e Lara Mara eram felizes.

        Até que aconteceu.
        Tinha que acontecer, não é?...
        Era inevitável.

        No que parecia ser um dia igual a tantos outros, alguém bateu à porta e as irmãs foram atender.
        Quis o acaso que fosse Mara Lara a abrir a porta.
        “Bom dia”, o desconhecido disse “o Sr. Juvenal está?”
        “E quem quer falar com ele?”
        “Diga-lhe que é o Casimiro.”
        “Só um bocadinho.”
        Mara Lara voltou-se para dentro e enquanto chamava “Pai, é para ti!”, foi com surpresa que o desconhecido pareceu vislumbrar uma outra rapariga completamente diferente da primeira: não mais bonita nem mais feia, apenas diferente. Mas não pensou mais nisso: apenas abanou a cabeça, achando que aquela visão não era mais que uma qualquer partida dos seus olhos, cansados de já terem visto muita coisa.
        “Miro!...” exclamou o Sr. Juvenal, surgindo de dentro do escuro “Então, como é que estás?... Há tanto tempo... Venham daí esses ossos!...”
        Depois de abraçar o tal Miro e pressentindo o olhar inquiridor da mulher, que entretanto se aproximara, Juvenal rapidamente explicou “Este é o Miro, meu antigo camarada de armas... Esta é a Augusta, a minha mulher... Mas entra, entra, não fiques aí especado.”
        “Então, homem”, continuou o Sr. Juvenal, enquanto acompanhava Miro à sala de estar, sempre seguidos pela D. Augusta “mas diz cá, que é feito de ti?... Por onde é que tens andado?...”
        “Oh” exclamou Miro “sabes como são estas coisas... um dia aqui, outro dia ali... a fazer isto, aquilo... Olha, tenho-me desenrascado!...”
        “Mas olha que estás com muito bom aspecto... Não achas, Augusta?”
        “É verdade, sim senhora...Olhe, eu não sei o que o Sr. Miro...”
        “Ai, senhor não!... Só Miro.”
        “Seja... eu não sei o que o Miro tem andado a fazer, mas olhe, bem que podia dar a receita aqui ao meu Juvenal, para ver se ele perdia esta barriguinha...”
        “Não digas disparates, mulher...” riu-se o Sr. Juvenal. “Bom, mas diz cá homem, queres beber alguma coisa, assim uma cervejinha para lembrar os bons velhos tempos?”
        “Olha que uma cervejinha fresquinha até marchava...”
        “Então, está bem... Ó mulher, vai lá buscar duas cervejolas ao frigorífico, se faz favor...”
        Quando a D. Augusta saiu, o Miro voltou-se para o Sr. Juvenal “Ouve lá, homem, aquela rapariga que me abriu a porta era a tua filha?”
        O rosto do Sr. Juvenal iluminou-se. “Uma delas. Espera aí, que eu vou chamá-las para tu as conheceres.”
        Simultaneamente com a saída do Sr. Juvenal, deu-se a entrada da D. Augusta com as duas cervejas.
        “O meu marido?”
        “Foi chamar as vossas filhas.”
        “Ah, as nossas meninas... São uma benção dos céus.”
        Eis que o Sr. Juvenal entra, acompanhado da mesma rapariga que lhe tinha aberto a porta.
        “Apresento-te as minhas filhas, Mara Lara e Lara Mara. Meninas, este é o Miro, um velho amigo do pai.”
        “Como está? Eu sou a Mara Lara.” E estendeu a mão a um Miro cada vez mais atarantado: filhas?!... Ele só via uma... Onde estava a outra?...
        Perdido nas suas reflexões, embrenhado nas suas questões, foi com surpresa, uma enorme surpresa, que Miro viu surgir diante dos seus olhos a outra tal rapariga que lhe tinha parecido vislumbrar anteriormente.
        “Eu sou a Lara Mara.”
        Depois do choque inicial, Miro finalmente percebeu. Gémeas siamesas. Apercebendo-se do orgulho e desmesurado amor dos pais, ele absteve-se de questionar o porquê de as raparigas não terem sido separadas em devido tempo: se elas continuavam como continuavam, alguma razão haveria. E não seria ele, Miro, que iria pôr essas mesmas razões em causa. No entanto, uma coisa Miro não pode deixar de notar: as diferenças entre as irmãs. Elas eram gémeas, sim, mas tão diferentes... Tão diferentes, tão diferentes, que essas mesmas diferenças, em vez de diferenciar, confundia.
        “Almoças connosco, não é verdade?”, perguntou o Sr. Juvenal.
        “Eu não quero incomodar...”, Miro começou, mas logo foi prontamente interrompido pelo Sr. Juvenal.
        “Incomodas agora... Não digas disparates, que fazes bem melhor... Fazemos até muito gosto na tua companhia, não é verdade, mulher?”
        “É verdade, sim senhor” concordou a D. Augusta “Almoce com a gente.”
        “Posto assim... Como é que eu posso recusar?”
        “Óptimo!” exclamou o Sr. Juvenal, esfregando as mãos de contente “Vamos para a mesa.”
        “O almoço é coelho guisado com arroz” disse a D. Augusta “Espero que goste.”
        “Oh, sim” disse, por sua vez, Miro “Muito.”
        Á medida que se aproximavam da mesa, a curiosidade de Miro aumentava cada vez mais: como é que aquela família comia, como é que eles tinham ultrapassado a situação causada, ainda que involuntariamente, pelas irmãs?
        E se alguém alguma vez disse que a necessidade aguçava o engenho, ali estava a prova mais que provada.
        A curiosidade de Miro pode então ser satisfeita.
        A mesa de refeições assemelhava-se a algo como um círculo oco, assim como a lendária Távola Redonda, mas incompleto: havia uma abertura num dos lados.
        Era por esse lado que as irmãs Mara Lara e Lara Mara entravam, sentando-se ao meio, viradas cada uma para um lado da mesa.
        Os pais, esses, sentavam-se do lado de fora, cada um em frente de uma das irmãs. Essas posições eram alternadas, conforme as refeições: aos almoços o Sr. Juvenal sentava-se em frente de Mara Lara e a D. Augusta em frente de Lara Mara, ao jantar trocavam.
        “Senta-te aqui, homem.” O Sr. Juvenal indicou a Miro o lugar entre ele próprio e a D. Augusta, onde assim podia falar com ambas as irmãs.
        E elas eram divertidas. E inteligentes. Mara Lara mais faladora, Lara Mara não tão exuberante.
        Já depois da refeição, na sala, Miro pode observar que as gémeas se sentavam numa espécie de puff.
        “Onde é que estás, Miro?”, o Sr. Juvenal perguntou.
        “Onde é que estou?...”
        “Sim, homem. Onde é que estás a dormir?”
        “Ah, isso... Olha, se queres que te diga, não sei.”
        “Não sabes?!”, admirou-se o Sr. Juvenal.
        “Não, ainda não. Estás a ver, só cheguei hoje... Mas ouve lá, já que falas nisso, há por aqui alguma pensão, residencial, ou coisa que o valha?”
        “Haver, há” começou o Sr. Juvenal “mas para que é que vais gastar o teu rico dinheirinho, se podes ficar cá em casa?”
        “Cá em casa?!... Não sejas maluco... Já te incomodei demais...”
        “Isso é o que tu dizes... Ficas cá e não se fala mais nisso, ponto final. Não te importas de dormir aqui no sofá, pois não?...”
        “Quem, eu?... É claro que não, mas olha lá...”
        “Olha lá, o quê?...”
        “Não achas que já estou a abusar?”
        O Sr. Juvenal nada disse, apenas olhou para Miro. Quem falou foram as gémeas.
        “Fique.”, disse Lara Mara.
        “Sim, fique, Sr. Miro”, acrescentou Mara Lara.
        Miro sorriu.
        “Eu fico, mas só com uma condição”
        “Qual?”, as irmãs perguntaram a uma só voz.
        “Que esqueçam o senhor. Esse está no Céu. Chamem-me só Miro.”
        Mara Lara e Lara Mara riram com gosto.
        “Combinado”

        Miro já estava na casa do seu amigo Juvenal há algum tempo, pois de cada vez que dizia que tinha que se ir embora e que já ali estava há mais tempo que a conta, de uma maneira ou de outra, os donos da casa lá arranjavam maneira de o convencer a ficar.
        Não que Miro se queixasse: não, muito antes pelo contrário. À hospitalidade de Juvenal, Miro não tinha coisa alguma a apontar, por mais ínfima que fosse.
        Até às irmãs Miro já se tinha habituado, praticamente esquecendo aquela particularidade muito delas: o de serem siamesas.
        Miro apreciava especialmente aqueles longos passeios que costumava dar, diariamente, quase ao final do dia, na companhia das irmãs. A rotina era sempre a mesma: na ida Miro falava com Mara Lara e, na volta, com Lara Mara. Mas o mais curioso e o que mais fascinava Miro, era a própria atitude delas nesses passeios: nas idas, quando Miro era acompanhado (por assim dizer) por Mara Lara, Lara Mara nada dizia, era como se não existisse. O mesmo acontecia nas voltas, quando Miro falava com Lara Mara: Mara Lara eclipsava-se. Era como se as irmãs tivessem a uni-las um interruptor, que elas próprias tratavam de ligar e desligar.
        E elas gostavam dele, da companhia dele, disso Miro sabia.
        Também Miro gostava delas, da alegria de Mara Lara e da calma de Lara Mara. Igualmente. Sem distinções.

        Mas ninguém dá nada a ninguém. E a maioria não dá ponto sem nó.

        No que parecia ser um princípio de noite igual às muitas que Miro já ali tinha passado, o seu amigo Juvenal chamou-o. Para uma conversa séria, disse. De homem para homem, disse.
        “Bom, aqui me tens. Diz lá o que tens para me dizer”, Miro falou.
        “Miro” Juvenal começou “gostas das minhas filhas?”
        “Gosto” Miro respondeu surpreso.
        “Gostas mesmo?”
        “Sim, gosto muito”
        “De qual gostas mais?”
        “Gosto das duas igualmente, sem preferências” a surpresa de Miro não parava de aumentar, sem perceber o sentido daquela conversa.
        Juvenal nada disse: apenas sorriu, aparentando satisfação pela resposta dada.
        “Mas ouve lá” Miro começou “que raio de conversa é essa, que eu ainda não percebi nada?”
        “Já lá vamos, já lá vamos” Juvenal acalmou-o “Tudo a seu tempo...”
        Houve mais um momento de silêncio.
        “És casado?” Juvenal finalmente perguntou.
        “Não”
        “E pensas casar algum dia?”
        “Não sei, talvez...”
        Silêncio, outra vez.
        “Dizes que gostas das minhas filhas” Juvenal recomeçou a falar “Muito bem. E se eu te as oferecesse?”
        “Como é que é?” Miro não queria acreditar no que julgava que tinha acabado de ouvir.
        “É isso tudo que ouviste” Juvenal confirmou “E se eu te as oferecesse?”
        “As duas?”
        “As duas”
        “Para quê?”
        “Para que é que havia de ser?... Para viver como homem e mulher. Ou mulheres...”
        Miro nada disse. Estava demasiado abismado com tudo aquilo que lhe estava a ser dito e oferecido.
        “Sabes” Juvenal continuou, perante o silêncio de Miro “o meu sonho, como o de qualquer pai, é o de deixar as filhas bem encaminhadas na vida. Ora, tanto eu como a minha Augusta não estamos a caminhar para novos. Por isso, gostava de deixar as minhas meninas bem entregues. Mas isso, como deves calcular, não tem sido nada fácil, mais a mais com a história de serem siamesas. Era mais fácil procurar uma agulha num palheiro... Até que tu chegaste, homem. As minhas filhas, é escusado dizer, gostam muito de ti. Já lhes expliquei a minha ideia e, como já deves calcular, concordaram imediatamente. Ficaram até muito felizes. A minha Augusta também está de acordo. E tu, o que é que me dizes?... Nunca mais tinhas que trabalhar, pois não sendo um homem rico, sempre tenho algumas posses. Que serão tuas, um dia. E mais, casa, comida e roupa lavada, todos os dias. Isto já para não falar nas duas mulheres que vais ter na tua cama, todas as noites... Então, negócio fechado?...”

        Miro ainda não queria acreditar no que lhe tinha acontecido.
        Estava em frente à porta do quarto das irmãs.
        Mara Lara e Lara Mara. As suas mulheres.
        Estendeu a mão para a porta e abriu-a.
        Algo receoso, entrou no quarto envolto em penumbra.
        Fechou a porta do quarto atrás de si.
        Após alguns instantes de habituação, os olhos de Miro puderam distinguir os corpos das irmãs na cama. Nus.
        Miro aproximou-se, deitou-se sobre elas, e apertou-as num abraço apertado.

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