sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Como (não) aconteceu


Etelvina, Vina como gostava de ser chamada, começava a ficar preocupada.
Já não era a primeira vez que aquilo lhe acontecia – longe disso – e a coisa sempre se resolvia por si própria, mas, mesmo assim... aquilo começava a assustá-la.
E seria só com ela, Vina, que aquilo acontecia? Ou também acontecia aos outros, só que ninguém falava disso?
Vina tinha-o conhecido num dia como os outros, numa ocasião qualquer.
Da primeira vez que o viu, Vina mal reparou nele. Quer-se dizer, notou que ele era educado, simpático, gentil, mas foi só.
Mas isso era sempre o que acontecia.
Só depois,  é que Vina começou a vê-lo com olhos de ver: ele era tão educado, tãão simpático, tããão gentil...
Nã, nã, nã: nada disso, Vina já conhecia o caminho que se abria à sua frente, e aquela era uma estrada que ela não queria, não podia, não ia seguir. De maneira nenhuma, pois Vina já sabia aonde a mesma ia parar: lá, àquele sítio que ela conhecia, onde já tinha estado, tinha saído, e onde não queria voltar.
Paixões assolapadas... E platónicas, ainda por cima.
Mas aquilo que mais assustava Vina, era outra coisa: ele era mais novo que ela para aí uns dez anos, mais coisa menos coisa, e ela, que sempre se tinha tido na conta de uma pessoa liberal para quem cada um só tinha que sentir bem consigo próprio independentemente do que os outros diziam,  que sempre pensou que a idade não tinha importância alguma entre os casais desde que eles se sentissem bem, pois bem, ela sempre tinha evitado interessar-se por homens mais novos. Na verdade, por já mais que uma vez Vina tinha usado o subterfúgio da idade para enterrar bem fundo algum interesse por alguém mais novo que ela. Se o homem fosse mais velho, isso  não a inibia, mas agora mais novo... já era outra música.
Mas desta vez era diferente.
Pela primeira vez, Vina deu consigo a não ligar a mínima ao facto de ser mais velha.
E isso assustava-a.
Quando estavam juntos, por esta ou por aquela razão, por mais que uma vez Vina pensou notar algum interesse especial da parte dele, mas logo a seguir obrigava-se a dizer para consigo que ela estava a construir castelos no ar.
Mas por mais que quisesse e tentasse – e ela tentava, a sério que tentava –, Vina não o conseguia tirar da cabeça: mas que parvoíce, mal conhecia o rapaz e ele ainda por cima era mais novo: com certeza que ele tinha outros interesses... Sim, podia até ser, mas que diferença fazia ele ser mais novo?... E ele até podia realmente gostar da companhia dela, não é verdade?... Pois, pois...
Ai Vina, ai Vina...  Acorda, mulher, acorda! Com tanta rapariga nova e bonita por aí, ele vai mesmo interessar-se por ti, está-se mesmo a ver: é a primeira bola a sair do saco. Oh, mulher, acorda! Abre os olhos: histórias da carochinha só nos livros e, e...
É isso mesmo, assim é que se fala: cabeça erguida, que isto vai passar: passa sempre – mas desta vez estava a custar tanto...


II

Hugo engraçou logo com o jeito desembaraçado dela.
Tinha-a conhecido não importa como nem quando, e achou-lhe logo um piadão.
Ela era mais velha, Hugo sabia-o, mas ele não podia precisar exactamente quantos anos. Não podia, ou não queria... Para ele, isso era irrelevante: que importava a idade?...
Hugo só sabia que gostava da companhia daquela mulher: ela era divertida, inteligente, sabia conversar, sabia ouvir.... E era bonita?... Sim, era: não no sentido clássico do termo, mas sim, ela era muito bonita – mais do que ela alguma vez podia imaginar. Podia parecer uma frase batida, mas a verdade é que a beleza dela vinha de dentro: uma incrível força de agarrar a vida.
Hugo já se tinha tentado aproximar dela, sempre que a ocasião se proporcionava e, se por vezes ela parecia corresponder ao interesse dele, por outras parecia que ela fugia: de quê, ele não sabia. Seria dele?... Será que ele, de alguma maneira, a tinha assustado?... Não, não, ele tinha a certeza que não. Ou seria ela?... Se calhar, era isso... Mas seria possível, uma mulher tão inteligente e esclarecida ter tão pouca confiança em si, na sua qualidade de mulher?... Seria?...
Que mulher tão estranha...
Que mulher tão fascinante!
Às vezes, nas situações mais diversas, Hugo dava por ele a pensar nela, a reviver cada momento passado com ela, muito devagarinho, como um filme em câmara lenta, saboreando cada um.
Hugo quase que passou a desejar ardentemente estar sempre com ela, falar com ela: se ela adivinhasse como era divertida, engraçada, ah, se ela apenas soubesse...
Mas não: ela não lhe dava a mínima importância.
Sim, ela era cortês, sim, ela era simpática, mas mais nada: chegava aí, parava.
E se ao princípio Hugo chegou a colocar a hipótese de o problema estar nela, que estava com medo de se interessar por ele, um homem mais novo, agora ele tinha certeza: o problema estava nele.
Ela não estava, muito pura e simplesmente, interessada nele.
Era só isso, nada mais, nada menos.
Qual medo, qual carapuça!...
E também, sinceramente, quem o tinha mandado a ele, Hugo, ficar interessado naquela mulher?...
É claro que ela nunca ia olhar para ele: era tão dolorosamente óbvio: onde é que aquela mulher ia arranjar motivos de interesse num rapazola como ele, um puto?... Não ia!...
Agora só havia uma coisa a fazer: tirá-la da cabeça.
E isso Hugo ia conseguir, custasse o que custasse.

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