terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Segundas intenções


        Mafalda estava furiosa.
        Pura e simplesmente furiosa. Fula da vida.
        E quanto mais pensava no assunto, mais zangada ficava. E mais calma. Também divertida. Era complicado…

        Guilherme.
        A culpa era dele. Toda dele. Toda e só.

        A coisa tinha começado da maneira mais inocente possível: Guilherme fazia anos, e Mafalda decidiu-lhe dar uma lembrança. Até aí nada de mais, nada de extraordinário, a coisa mais natural do mundo: um amigo presentear o outro na altura do seu aniversário. Pois sim.
        Mafalda e Guilherme não se podiam considerar amigos, sim, era verdade, mas e daí?, pensava ela. Mafalda conhecia-o, Guilherme conhecia-a, durante algum tempo tinham convivido mais de perto e ela tinha ganho simpatia por ele. Nada mais, nada menos. Só isso.
        Por isso, quando Mafalda viu aquilo na loja, pensou imediatamente nele. Foi automático. E como ela sabia quando Guilherme festejava o seu aniversário, decidiu comprar aquela prenda. Era verdade que ainda faltavam alguns meses, mais isso não incomodou Mafalda. Aliás, aquela prática já era costume nela: via as coisas, lembrava-se das pessoas, adquiria-as (as coisas, bem entendido), e  aguardava pela altura própria: era quase compulsivo: dar pelo simples prazer de dar.
        Até aí, tudo bem.
        E chegou o aniversário de Guilherme.
        Sem deixar que ele falasse, logo Mafalda lhe estendeu, algo orgulhosamente, a prenda escolhida: a surpresa manifesta no olhar dele foi por demais evidente: Guilherme não estava mesmo à espera.
        Depois de agradecer, assim a modos que atabalhoadamente, acrescente-se, Guilherme disse algo que mais valia nunca ter dito: “Não sei se me destes isto para ficares bem vista…”.
        Mafalda ficou gelada. E zangada. Magoada, também. Tudo por causa daquelas três palavras: “ficares bem vista”.
        “Ficares bem vista?”, “Ficares bem vista?”…. Bem vista, o tanas!… É que foi mesmo a pensar nisso que Mafalda tinha comprado aquela prenda – fora isso e peixe para o gato.
        Ora bolas, ela pensava que Guilherme a conhecia um bocadinho melhor que isso.
        Ele com certeza que leu nos olhos dela a ferida aberta por aquelas três malfadadas palavras e a seguir ainda tentou pôr água na fervura, ou seja, tentou dar o dito pelo não dito, dar a volta ao prego.
        Mas sem sucesso.
        As palavras tinham sido lançadas e já nada as podia apagar.
        Não obstante a mágoa, Mafalda achou piada às tentativas de Guilherme em fazê-la esquecer o inesquecível: “ficares bem vista”: não que Mafalda fosse um pessoa de guardar rancor, rancorosa, não, nada disso – mas havia coisas que não se podiam esquecer… E Mafalda tinha uma excelente memória…
        Depois de obrigar-se a isso, Mafalda reconheceu que nem todos pensavam como ela, com aquele quase desprezo pelo dinheiro (até parecia que não lhe custava a ganhar) e aquela paixão quase desproporcionada em dar prendas. Talvez fosse difícil a Guilherme entender esse traço da personalidade dela…
        Já Mafalda estava quase pronta a varrer aquela frase da sua mente para debaixo de um qualquer tapete, quando Guilherme fez uma pergunta que ela não gostou: “Quando é que fazes anos?”.
        A ferida que estava quase fechada, recomeçou a sangrar: também não tenha sido a pensar nisso, em receber prendas, que Mafalda tinha presenteado Guilherme. Não tinha?… Se Mafalda pusesse a mão na consciência, de certeza que não era esse o motivo, se bem que muito escondido, que levava Mafalda a presentear os outros?… A resposta saiu curta e inequívoca: não. Quando muito, e aí Mafalda estava disposta a fazer uma concessão, poderia ter algo a ver com o facto de amigos e conhecidos raramente se lembrarem do aniversário dela. Então lembrava-se ela dos aniversários deles… Mas quando Mafalda os presenteava nunca que nunca era à espera de algo em troca. A sério. Ela apenas gostava de dar.
        Podia parecer esquisito, contra–natura até, mas Mafalda era assim: apesar de quase sempre esquecida, não sabia porquê, não fazia mesmo nenhum esforço para isso, lembrava-se sempre dos aniversários de quem conhecia. E fazia sempre questão de, se não comprar uma lembrança, pelo menos ter uma palavra de felicidades. Pois era forte convicção de Mafalda que todos, mesmo todos – até aqueles que diziam não ligar nenhuma a isso –, ficavam deleitados com aquela simples atenção, de alguém se lembrar do dia deles. É que era esse o sentimento de Mafalda: adorava quando alguém se lembrava do aniversário dela: mais do que receber prendas, o que para ela era mais importante era o facto de ser lembrada. Uma simples palavra, era o que bastava.
        E agora Guilherme queria saber quando é que ela fazia anos.
        Mas Mafalda não lhe disse: se ela tinha sido capaz de descobrir o aniversário dele, ele também havia de ser capaz de descobrir o dela. Só era preciso vontade.
        Era pirraça, Mafalda sabia-o, mas a verdade é que ela não fazia a mínima intenção de facilitar a vida a Guilherme: se ele quisesse saber, que pusesse os neurónios a funcionar: era tudo dado e arregaçado, não?… Isso é que era belo: não queria ele mais nada…
        “Tudo bem, eu cá me hei-de arranjar”
        Mafalda não pode deixar de pensar ter notado um leve traço de aborrecimento na voz de Guilherme – mas podia ser só sugestão.
        Bom, a conversa estava muito boa (mas qual conversa, Mafalda muito gostaria de saber), mas ele tinha que ir. Depois de mais uma vez agradeçer a prenda, Guilherme despediu-se.
        Ao observá-lo enquanto ele se afastava, Mafalda não pode evitar um meio sorriso, apesar de ainda magoada: sempre queria ver se Guilherme realmente se ia dar ao trabalho de descobrir o aniversário dela: já agora, estava curiosa.
        Mas para isso, teria que esperar para ver…



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