terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Balada do que foi


         A saia da Carolina
        tem um lagarto pintado
        Sim Carolina, ó-ai meu bem
       Sim Carolina, ó-i-ó-ai

        Ela olhou sabe-se lá para onde, com um olhar perdido, cantarolando a canção que a mãe lhe costumava cantar quando era ainda criança pequena.
        Aos anos que isso tinha sido… Tantos, tantos…
Agora, já bem entrada na idade adulta, ela, sabe-se lá porquê, teimava em lembrar-se desses dias passados, longínquos no tempo e no espaço.
Nizinha, era assim que ela era chamada, Nizinha.
Belos, belos tempos...

“Nizinha!... Oh, Nizinha, anda cá!...”
Do alto dos seus 10 anos de idade, ela voltou-se para ver quem chamava: era a Constança, a velha Constança, a antiga ama da mãe, e actual ama dela e de seus irmãos, Gilberto, mais velho 3 anos, Raimundo, mais velho 1 ano e 4 meses, e Paulina, mais nova 2 anos.
Era Verão, e toda a família estava de férias na praia.
No Baleal, pois então, praia de sempre.
“Nizinha!... Anda cá já, estás a ouvir?”
Ela soprou, aborrecida.
“O que é que foi?”
“Anda cá pôr o chapéu, que o sol está quente, e tu ainda te constipas.”
“Não.”
“O quê?!... Diz lá outra vez, que eu não ouvi bem...”
“Não vou pôr chapéu nenhum. Não vou. Não, não e não.”
        “Ai, vais, vais.” 
“Não vou nada, já disse.”
“Ouve lá, ó menina, mas quem é que manda aqui?... Põe lá o chapéu, se faz favor.”
“Não me apetece.”
“Maria Carolina...”
Não foi preciso dizer mais nada: quando a Constança a chamava pelos dois primeiros nomes, e não pelo diminutivo, era porque a coisa estava a ficar séria.
Apressou-se pois a ir pôr o tal chapéu.
        “Vês, como ficas bonita?...”
        “É... E agora, o que é que vou fazer?”
        “Agora?!... Agora, olha, vai brincar com os teus irmãos.”
        Ela olhou para a velha ama de lado: brincar com os irmãos?... É que nem pensar nisso era bom... O Gilberto e o Raimundo estavam entretidos naquelas brincadeiras parvas de rapazes, e a Paulina... Bom, a Paulina ainda era um bebé, e não se falava mais nisso.
        “Vou brincar sozinha.”
        “Está bem, mas não vás para longe.”
        “Não vou.”
        Ela começou a andar distraidamente pela beira mar, a observar a rebentação suavemente agonizante das ondas.
        Quase sem dar por isso, viu-se relativamente longe da praia e dos banhistas, figuras pequenas, pouco maiores que um dedal, na linha do horizonte.
        Ao mesmo tempo, viu-se perto, muito perto, das dunas.
        E as palavras dos pais fizeram-se ouvir. «Vê lá, tem cuidado. Nunca vás sozinha para as dunas, que é perigoso.»
        Perigoso?... Porque seria?... A ela, as dunas não pareciam nada perigosas: eram apenas grandes montes de areia, cobertos por uma qualquer vegetação rasteira.
        E decidiu ir. Às dunas.
        Decidiu assim, num repente, sem mais nem menos.
        Sempre queria ver, com os seus próprios olhos, o que é que as dunas tinham de tão perigoso.
        Sem pensar duas vezes, embrenhou-se naquele areal feito de altos e baixos, e não lhe viu nada de mais: era bonito, sim, mas infelizmente, também um pouco sujo.
        E, até onde a sua vista alcançava, não via vivalma: apenas um imenso chão ondulado feito de areia e verde.
        Depois de muito subir e descer, parou: estava cansada, muito.
        E também algo desiludida: tanta coisa com as dunas, tantas advertências, e para quê?...
        Sentou-se, e olhou em volta: tudo era igual, calmo e sereno, sim, mas também violento e selvagem.
        O vento estava a levantar-se, e para evitar ser fustigada pela areia que teimava em atingi-la, procurou um ponto mais abrigado.
        E foi ali que lhe foi dado a observar aquela dança insólita: a areia e o vento, a primeira a deixar-se conduzir pelo segundo, ao som da música do mar.
        Também embalada, adormeceu.
        Quando acordou, aturdida, não sabia onde estava. Mas logo se lembrou.
        E ficou preocupada, pois com certeza os pais já deviam ter dado pela falta dela, e então... Ai Jesus, havia de ser o bom e o bonito...
        Eis senão quando algo fez disparar os seus sentidos.
        Um som. Ou melhor, vários sons.
        Curiosa, caminhou atrás.
        Passou uma, duas dunas, e a fonte daquilo estava já ali, logo a seguir àquela terceira duna.
        Quando finalmente atingiu o cume, a estupefacção tomou conta: estava à entrada de Peniche, junto da aldeia dos pescadores. Era daí que vinham aqueles sons.
        Riu de si para si, e decidiu voltar para trás.
        Foi no rasto da melodia das ondas, e assim chegou à praia.
        A partir daquele momento, não ia haver problema: sabia perfeitamente chegar aos seus.
        Olhou para a direita, e lá estava, a praia do Baleal.
        Sorriu, e pôs-se a caminho.
         

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