segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Para sempre


“A igreja estava toda iluminada…”
Ali mesmo, prestes a caminhar para o altar no que se suponha ser o dia mais feliz da sua vida, Maria da Luz não conseguia tirar aquela melodia da cabeça.
Mas Maria da Luz não queria saber. Só lhe interessava agora o que estava prestes a acontecer: o seu casamento com Abel, o seu mais que tudo. O homem que tinha a certeza amar.
Sorrateiramente espreitou para dentro da igreja e viu que todos os convidados já estavam placidamente acomodados nos respectivos lugares, com uns a primarem pela elegância, outros nem por isso.
Viu também a igreja selecta e graciosamente enfeitada com flores, distribuindo pelo ar um airoso perfume.
E foi com um arrepio de ternura que pode observar Abel, no alto do seu fato escuro e a respirar virilidade por todos os poros da sua pele morena, a esperá-la a ela, Maria da Luz, junto ao altar.
Aos primeiros acordes da “Marcha Nupcial”, Maria da Luz entrou na igreja, pelo braço do seu circunspecto, mas de certeza feliz, pai.

Junto ao altar, sentindo-se mais e mais apertado dentro do seu muito garboso fato, Abel não queria acreditar no que lhe estava prestes a acontecer. Ia casar-se. Casar-se. Logo ele, que sempre tinha dito que nunca, jamais, em tempo algum, daria tal passo, assumiria tal compromisso.
Mas ela… Ela merecia. Maria da Luz, a sua Luzinha. Por ela, ele estaria disposto a dar tal passo.
Não obstante a sua vontade em construir uma vida a dois com Maria da Luz, abençoados por Deus Nosso Senhor, Abel sentiu gotas de suor a formarem-se na sua testa, apesar da aragem fresca daquela manhã de Maio.
Estava Abel a preocupar-se com o seu possível cheiro a suor, «Espero que ninguém dê por nada!», quando os primeiros acordes da “Marcha Nupcial” o arrancaram dos seus pensamentos mais íntimos, dos seus medos mais profundos.
E eis que ela, Maria da Luz, entrou. A sua Luzinha!... Estava… linda!... Linda, linda, linda!... Abel apenas conseguia olhar para ela, com as lágrimas teimosas a querer inundar os seus olhos.
Quando o pai de Maria da Luz deu a Abel o braço da filha, ele só conseguiu olhar para ela, hipnotizado: só tinha olhos para  ela, a sua noiva, a sua Luzinha.

“Caros amigos”, o padre começou. Mas não acabou.

Não, o padre não acabou.
Realmente começou, “Caros amigos”, mas não acabou.
Não conseguiu.
Nem iria conseguir.
Caiu redondo no chão, fulminado por um ataque de coração.

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