quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Uma ideia como outra qualquer


        Por falar em ideias e manias, lembro-me de uma rapariga, a Eva, que tinha uma, no mínimo curiosa: figos. Eva adorava figos. Mas o mais engraçado era que a Eva nunca tinha provado figos, nunca na vida. No entanto, dizia que os adorava.
        Todos os dias, ao passar por aquela figueira, semi–tapada por aquele muro, Eva ficava parada a olhar para a copa frondosa, a adivinhar a forma do fruto, a sentir-lhe o gosto… Quando dava por si, já se babava e lambia por todos os cantos.
        E quando Eva estava com as amigas, punha-se sempre a falar da sua perdição, os figos.
        “Ó pá, vocês nem imaginam” e dizia “aquilo é muito bom”
        “Verdade?” e as amigas nunca tinham provado figos.
        “Verdade” e assentava com a cabeça “Melhor que chocolate”
        Ena, melhor que chocolate? E arregalavam muito os olhos – melhor que chocolate… mas  o que é que podia ser melhor que chocolate?
        “E então” e continuavam “como é que o figo é? É grande, pequeno?”
        “Oh” e os olhos de Eva brilhavam “É grande, deste tamanho” e fazia um grande círculo com os braços.
        “Grande?” e uma das amigas, a Célia, estranhava.
        E Célia já tinha visto fotografias de figos nas TeleCulinárias da mãe e não pareciam assim tão grandes.
        “Tens a certeza?” e Célia insistia “Olha que nas fotografias não parecem muito grandes”
        “Isso é nas fotografias” e Eva desdenhava.
        “Hum, não sei” e Célia não parecia muito convencida.
        “Estás a chamar-me mentirosa?” e Eva zangava-se.
        “Se calhar, estou” e Célia respondia.
        E brigavam. E rebolavam no chão. E bofetadas. E puxões de cabelo.
        E as outras assistiam.
        “Eva Maria”
        “Célia Cristina”
        E as mães chamavam.
        E elas iam.
        E a briga acabava. E a coisa ficava por ali.
        Mas Eva cada vez pensava mais em figos e na sua adoração por eles, apesar de nunca os ter visto mais gordos. Ela sabia lá como eram e como sabiam – no entanto, Eva gostava de figos,  e pronto!
        Vai daí, numa das muitas vezes em que passava pela tal figueira, viu o portão aberto e não pensou duas vezes: correu para o portão. Olhou para a direita, olhou para a esquerda, ninguém à vista.
        Óptimo!
        A figueira estava lá, rainha no seu reino.
        Eva tocou no tronco da figueira e uma coisa esquisita correu-lhe pela espinha abaixo.
        Cruz credo: Eva ficou assustada. Até parecia que a árvore estava viva e queria-lhe falar…
        Olhou para cima: xi, que coisa tão alta.
        E agora?
        Alguma coisa se havia de arranjar.
        Eva viu umas pendurezas pequenas verdes nos ramos. Então aquilo é que eram figos?
        Afinal, a Célia sempre tinha razão – os figos realmente eram pequenos.
        Bom, isso agora não interessava – interessava sim, fazer os figos chegar cá abaixo.
        Mas como? Como?
        Eva olhou à sua volta, e teve uma ideia. Agarrou em várias pedras, e foi um ver se te avias, a atirá-las até cair algum figo. Só que tal não era nada fácil, muito antes pelo contrário: mas mesmo certo não caía nenhum?… Aquilo é que era uma pontaria…
        Bolas, que já não era sem tempo!… Até que enfim: caiu um figo.
        Eva correu a apanhá-lo: peganhento…
        “Hei, menina” um trabalhador da quinta “O que é que está aí a fazer?”
        Eva não respondeu: ficou tão assustada que não disse nada, não foi capaz.
        “Ó menina, estou a falar consigo” continuou o homem “Então não querem lá ver que a cachopa é surda”
        Eva, ao ver o homem aproximar-se, virou-se e pernas para que vos quero – parecia o diabo a fugir da cruz…
        Quando viu que já estava bem longe, parou.
        Depois de recuperar algum do fôlego, elevou a mão direita e abriu-a lentamente, uma flor a abrir. No meio, o figo.
        E agora?
        Eva não fazia a mínima ideia de como comer um figo.
        Mas isso não a atrapalhou: levou-o à boca, e pronto, mordeu-o…
        Hã, o quê?
        Ah, querem saber se a Eva gostou do figo, é isso?
        Mas vocês acreditam que eu me esqueci de lhe perguntar?
        Pois é, não sei.
        Mas olhem, façamos o seguinte: da próxima vez que eu a ver, pergunto-lhe e depois digo, está bem assim? Pode ser?
        Pode?
        Ainda bem.


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